A falta de educação on line

Colégio FAAP

05 de abril de 2021 | 09h42

Em qualquer nível da educação formal preparar para a vida em sociedade é uma obrigação inalienável: não basta estarmos bem informados, não é suficiente termos um cabedal técnico eficaz, saber viver em sociedade, ter percepção e sensibilidade dos outros é requisito de êxito pessoal e da própria sobrevivência da espécie.

Num contexto em que o trabalho em equipe é pré-condição do produzir, comportamentos antissociais e o que chamaram (adequadamente) halitose comportamental não têm como não serem trabalhados e anulados na educação.

Não estamos nos referindo àquela saudosa maneira cavalheiresca de nossos pais que, jamais, seriam capazes da grosseria de não ceder lugar a um idoso, falamos de urbanidade, um conjunto de atitudes para o convívio socialmente civilizado e, sobretudo, nestes tempos, suportável: no contexto agudizado vivido, onde a empatia está associada à sobrevivência, “espinhos” no trato ganham dimensões inusitadas.

Em respeito ao espaço e à inteligência de algum leitor que se digne a nos ler, não faço menção à barbárie daqueles que buzinam freneticamente para liberar meio metro de asfalto, muito menos dos que trafegam com o som em tal volume como se fossem arautos de um apocalipse do mau gosto: quero tratar de uma nova modalidade, a má educação on line.

Como todo o ser de essência analógica fui, cautelosamente, me introduzindo nas novas formas de comunicação: sem muito esforço aceitei as “novidades” no massacrar o pátrio idioma, já que as línguas são entidade vivas. No entanto, fui sendo incomodado um por um imperceptível mal estar nas comunicações a distância que, mais do que ruídos, demostraram novas modalidades de grosseria…

Exemplifico. Em encontros pelo zoom, maravilhosa ferramenta de superação do distanciamento social, é profundamente incômodo, senão ofensivo, encontrar pessoas com suas câmeras fechadas: se, numa situação presencial, ou em uma aula, alguém abrisse um jornal, ou se recostasse para um cochilo, ficaríamos verdadeiramente ofendidos, sucedâneo indiscutível das câmeras desligadas…

Microfones abertos gerando intromissões sonoras, ou cenários inadequados revelam a falta de sensibilidade na diferenciação entre o público e o privado e que poderia ser resumida naquela velha e eloquente frase da antiga pedagogia: “você pensa que está em sua casa?”

Não tenho dúvidas de que, projetados na menor identidade social do mundo digital a pouca sensibilidade das relações se amplificam gerando uma nova cultura da descortesia: pode ser implicância senil, mas me incomoda muito, após escrever uma cuidadosa mensagem para alguém, receber como resposta (no desdém de um clique), uma minúscula imagem. Isso para não falarmos das arenas digitais onde os recalques enfurecidos da irracionalidade encenam tragicomédias de boçalidade inigualável.

Um universo de pequenas e indelicadas posturas vem povoando o “modo virtual de vida” e acrescentando, sutilmente, atitudes que reforçam a desconstrução da essência mesma da urbanidade esse condimento social que dá sabor à vida!

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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