A difícil tarefa de ajudar a escolher e aprender a perder

Colégio FAAP

20 de novembro de 2020 | 09h44

Enquanto professor de História e Política, em períodos eleitorais, sobretudo, pelejei para mostrar aos alunos que escolhas sempre implicam em perdas e que estas, na democracia, são fatores essenciais na construção de uma cultura democrática enquanto única garantia de sobrevivência dessa tão desejada condição civilizatória.

Naqueles tempos mais amenos, incentivar os alunos a descobrirem os deveres e, sobretudo, o direito ao voto, era um trabalho difícil, pois sempre enfrentamos uma descrença cultural pela vida política e, em todas as faixas estudantis, uma rejeição beirando muitas vezes o asco.

Nestes tempos polarizados nos quais a lógica é, sistematicamente, atrofiada por paixões, um sentimento que sobrenada todas as esferas da vida se impõe de forma sorrateira, mas extremamente aguda, mais do que a ânsia desmedida de ganhar, o pavor de perder.

Lembro, mais uma vez, a ofensa que, “imigrando do norte” (e ganhando sotaques múltiplos) patenteia esse sintoma mórbido: “loser”…

Se a disputa é um código genético do ser humano, a agressividade deveria ser um traço neutralizado pelo avanço da civilização. No entanto, o acirramento de paixões irracionais aparece como desafio dos educadores. Mais uma vez, se tornou emergencial lapidar as consciências para que se deem conta de que a democracia é um sistema de contrapesos em busca constante do equilíbrio e que todas as experiências em contrário significaram as páginas mais negras da história.

Daí insistirmos de que a escola deva ser a construção perene da “cultura democrática”: espaço para o diálogo responsável; lugar de participação sem “assembleísmos” inócuos; piso para a gestação da iniciativa individual e autônoma de formação da cidadania; linha de produção de respeito às diferenças baseada na empatia e no convívio civilizado de antagonismos.

Na orientação para a construção de uma consciência democrática e, portanto, civilizada, aceitar e aprender com as perdas e derrotas é tarefa vital. É levar à consciência do educando que, muitas vezes, se aprende mais perdendo por escolhas equivocadas do que por vitórias e que, na vida, a variável sorte pode ser um acidente da imprevidência e da alienação.

 Aprender a escolher é aceitar, por princípio, perder, coisa que as atuais gerações não conseguem se dar conta.

Trazer para o espaço pedagógico as eleições e conferir-lhe o caráter republicano, que é sua essência, é obrigação inalienável dos educadores que não pode ser limitada, impedida ou enviesada por pudores ou radicalismos ideológicos. Eitar a discussão política é fugir à realidade, é pré-condição para a germinação de radicalismos que contaminam a própria essência do conhecimento, enquanto base de todo o processo educacional.

Se fomos marcados, durante muito tempo, pelo receio a temas políticos, voltamos temê-los para evitar conflitos, atitude de avestruzes educacionais oferecendo o corpo de nossos alunos à sanha daqueles que buscam o conflito, que se valem do contraditório para ludibriar a inocência incauta, que semeiam a discórdia travestida de preventivo à “conspiração universal dos malvados”.

Em nosso Colégio sempre apoiamos os professores, mesmo daquelas áreas às quais, tradicionalmente, não se atribui essa tarefa de estarem, permanentemente, trazendo a realidade para o espaço pedagógico.

Privar os nossos alunos de viverem intensamente sua realidade de forma consciente é torná-los habitantes de um espaço inexistente, e que descobrirão, muito tardiamente, nos livros de história, que não foi deles, mas que lá estiveram.

 

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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