Vestibular e as leituras obrigatórias

Colégio Equipe

30 Abril 2015 | 11h50

A leitura é considerada um hábito desejável para todas as pessoas. Trata-se de uma afirmação muito genérica, disseminada no senso comum e originada em uma noção de cidadão ou cidadã ideal como doutor: engenheiro, advogado, médico. Profissões reputadas e doutorais, associadas à companhia dos livros, desde manuais de história até a literatura romanesca, dramática ou poética. A ideia de que a leitura, e em particular a leitura literária, é parte necessária do repertório de um indivíduo médio, isto é, escolarizado e possível postulante a uma formação superior, respalda a presença de uma lista de livros para leitura obrigatória nos vestibulares brasileiros.

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Narrador popular de rua no Japão (2012). http://goo.gl/dBtI0e

Evitando discutir a vestibularização do currículo do Ensino Médio, que acredito ser um fato admitido por profissionais de educação, e que considero uma inversão prejudicial, que confunde (no sentido de mistura e não de troca equívoca ou substituição), a finalidade da experiência escolar com a finalidade de seleção dos vestibulares ¨ por mérito ou memória e também prerrogativas sociais, muito treinamento e alguma sorte (mas pouca) ¨ , gostaria de debater a lista atualmente em vigor para o vestibular da Fuvest. Refiro-me, quando falo em vestibularização, a uma realidade geral, pois todos os agentes da educação querem preparar os alunos para o vestibular e fazer essa preparação no âmbito de um currículo orgânico, mas às vezes as finalidades podem estar em conflito.

Dentre os nove títulos listados encontram-se quatro livros publicados no século XX (mas o primeiro pertence ao XIX): A cidade e as serras (1901), de Eça de Queirós, Capitães da areia (1937), de Jorge Amado, Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, e Sentimento do mundo (1940), de Carlos Drummond de Andrade. Os outros cinco são do século XIX: Viagens na minha terra (1846), de Almeida Garret, Memórias de um sargento de milícias (1852-53), de Manuel Antonio de Almeida, Til (1872), de José de Alencar, Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, e O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo. São oito romances e um livro de poemas, publicados entre 1846 e 1940, de dois escritores portugueses e sete brasileiros.

Caso a diversidade de gêneros seja um critério, a lista mostra-se limitada, representando escassamente a poesia, excluindo o gênero dramático, outras espécies de narrativa ¨ o conto, a crônica, a memória, a correspondência, a reportagem etc. e o ensaio” (cuja estrutura argumentativa, diga-se, determina a prova de redação, de tipo dissertativo).

Caso a diversidade histórica seja um critério, a lista é bem pouco representativa, excluindo a matéria medieval portuguesa, os séculos XVI, XVII e XVIII, de abundante produção literária vernácula, e a longa segunda metade do século XX.

Há ainda uma limitação de base da escolha dos livros: o critério nacionalista, que impede a presença de livros tão importantes como o Hamlet (1604), de William Shakespeare, As flores do mal (1857), de Charles Baudelaire, Ao farol (1927), de Virginia Woolf, ou Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo, e a ênfase do critério literário.

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Marilyn Monroe lê as páginas finais do Ulisses (1922), de James Joyce. http://goo.gl/qGSe7m

Quando os currículos de Português do Ensino Médio tentam incluir em seus programas a maior variedade possível de livros solicitados pela Fuvest, essas limitações se tornam empecilhos, pois será que devemos mostrar a nossos alunos, quando estudamos o Romantismo no Brasil, um livro como Til em detrimento, por exemplo, de Iracema, muito mais central e representativo da escola literária a que pertence e muito mais produtivo também como repertório geral de um leitor médio? Será que devemos solicitar a nossos alunos ao longo do Ensino Médio a leitura de três livros pertencentes ao Modernismo e de dois ou três romances românticos em detrimento da variedade de experiências históricas e genéricas de leitura? Será que devemos mostrar apenas obras já historicizadas e ignorar os últimos 75 anos, para leitores que tem preponderantemente entre 14 e 17 anos? Não, não devemos. Não devemos porque os fins da experiência escolar não devem se confundir (no sentido de substituir inadvertidamente uma coisa por outra) com os fins de seleção dos vestibulares. Nisto, podemos nos valer da autoridade do professor grego Aristóteles que, em suas aulas sobre a tragédia, afirmou que “em tudo, a finalidade é o que mais importa”, isto é, a finalidade determina em grande medida os meios e os inícios, o percurso e o método.

Talvez fosse importante experimentar outros critérios de composição da lista. Seria possível, por exemplo, supor a determinação dos títulos pelos assuntos. Se pensássemos que é importante suscitar debates e reflexões sobre geopolítica, ambientalismo, história da América Latina e da África, totalitarismo no século XX, direitos civis ou genocídios, revolução tecnológica ou pesquisa científica, para citar exemplos mais ou menos imediatos, poderíamos encontrar muitos livros ¨ literários em um sentido estrito ou em um sentido amplo, que poderia incluir Rui Barbosa, Foucault ou Confúcio ¨, capazes de funcionar como disparadores de tais debates.

Mais importante seria pensar a lista de livros como um convite à visitação da literatura por sua capacidade de inventar experiências humanas possíveis, mundos e mitos identitários possíveis. Isso porque certos debates que a literatura suscita interessam apenas a especialistas ¨ a metáfora, o Realismo ou o estilo ¨, mas a literatura em si mesma, em seus mitos ou fábulas ¨ a impotência de Gregor Samsa, a solidão de Robinson Crusoé, o sofrimento de Medeia e Antígona ¨pode interessar a todos, porque somos animais fabuladores, que atribuem sentidos inventados às coisas formulando enredos capazes de totalizar, mesmo que provisoriamente, as multiplicidades de eventos que nos atravessam.

Iuri Pereira
Mestre em Teoria Literária e leciona Português no Ensino Médio.

Publicou “Dez poemas da vizinhança vazia” (2012) e organizou edições da “Farsa de Inês Pereira” (2012), de Gil
Vicente, e de poemas de Gregório de Matos, “Desenganos da vida humana” (2013).