Por onde andam as crônicas?

Por onde andam as crônicas?

Colégio Equipe

10 Março 2015 | 12h59

A palavra texto vem do latim teccere (construir, tecer), cujo particípio passado, textus, também era usado como substantivo, e significava ‘maneira de tecer’, ou ‘coisa tecida’ e, ainda mais tarde, ‘estrutura’.
Escrever um texto é como tecer: há uma trama de fios cruzados, entremeados, enlaçados, para que formem um tecido repleto de significados. O tecido abriga, protege, aquece, cobre e descobre. Os tecidos dos povos são sua cultura e expressam seus modos de ser e viver. O mesmo ocorre com os textos.
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O 8º ano do Colégio Equipe estuda e escreve crônicas no primeiro semestre. As crônicas são textos curtos, nascidos da urgência do registro das coisas acontecidas no tempo, descobertas de novos lugares, crônicas de viajantes, relatos  de História. Com a imprensa e a difusão dos jornais, a crônica ganhou espaço no cotidiano de cidadãos que encontravam na meia página a ela destinada um respiro – talvez mais narrativo, talvez mais pessoal – em meio às notícias que constroem o nosso dia a dia.
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Imagem: Trabalho de Artes do 9º ano exposto no evento Arte e Cultura em 2013
A crônica mira o banal, o particular, ilumina as pequenezas que não dão manchete, não são notícia. É a literatura ao rés do chão, como escreve Antonio Candido em seu brilhante ensaio A Vida ao Rés do Chão, que abre a coleção Para Gostar de Ler (São Paulo, Ática).
Trabalhar com crônicas em língua portuguesa é privilégio de todos nós que por aqui nascemos e com essa língua lidamos. Desde Machado de Assis, a crônica parece ter gostado de nós,  nosso jeito,  nossa gente. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Clarice Lispector… A lista é linda e longa, textos os mais variados, futebol, novela, família, a existência. São infinitos os caminhos e os projetos de leitura possíveis.
Com a internet e todos os alardes sobre o fim do livro, da leitura, da escrita, a crônica só fez crescer e se difundir. Agora, para o bem ou para o mal, o registro do cotidiano, do banal, do irrisório, antes confinado às agendas, diários, cadernos secretos, murais de cortiça ou álbuns de fotos físicas, ganhou espaço na grande praça pública que é a Rede. Assim, embora talvez não estejamos escrevendo e lendo tão bem, estamos, é fato, escrevendo e lendo muito. Fica a questão: com tanta exposição, estamos iluminando ou apagando as pequenezas da nossa existência? Saímos de nossos passeios pelas redes sociais, twitters etc., mais sábios e repletos de experiência ou mais esvaziados?
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Bordados matizes Dumont
Com todas essas questões na cabeça, resolvemos, em 2010, aliar ao trabalho de leitura e produção de crônicas o de produção de blogs. A internet é um espaço livre que, se bem usado, pode criar um verdadeiro diálogo e tornar-se um espaço de comunicação real e criativa. O blog é um meio de fato utilizado por inúmeros cronistas, reconhecidos, célebres, iniciantes, o que seja, para a difusão e divulgação de textos.
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Criamos um blog guarda-chuva: lululeitora.blogspot.com.br
Neste blog há a explicação do trabalho, alguns posts meus sobre a sala de aula. O principal, na barra à direita,  são os links para os blogs individuais de cada um dos alunos cronistas. A ideia é formar uma rede de blogs, para que todos possam ler as crônicas de todos. Além disso, o trabalho de produção de texto sai da sala de aula e da relação “aluno escreve-professora corrige” e ganha leitores reais, que acompanham a produção semanal dos estudantes, por interesse, gosto, diversão, curiosidade. As famílias são os primeiros leitores, mas logo forma-se uma rede de amigos, colegas, amigos de amigos, estudantes das outras classes…
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Imagem: Cartazes realizados na disciplina de Artes do 9º ano no evento Arte e Cultura de 2013
Assim como as tramas do tecido, são infinitas as tramas dos textos: cada blog logo ganha a personalidade de seu criador ou criadora, seja pelo layout da página, seja pelo estilo da escrita, pelos temas escolhidos. A caixa de comentários torna-se um espaço vivo de diálogo e troca. Conversamos muito sobre a qualidade da experiência compartilhada, sobre os cuidados a se ter ao publicar algo nosso na rede, fotos, o que se conta, o que não se conta, cuidados. Muitos criam avatares, pseudônimos, ninguém publica fotos de rosto ou corpo, e todos, ao final, ficam muito ciosos e orgulhosos de suas produções.
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Imagem: visita do escritor Antonio Prata ao colégio Equipe. 2013.
As palavras, assim como os fios, têm suas regras de aproximação e repulsão, regras de uso, de forma, de adequação, coesão e coerência. Assim como os fios, as palavras se embaralham, e podem construir textos frágeis, cheios de buracos ou nós aparentes. Os textos expostos nos blogs muitas vezes também apresentam esses buracos.
Optamos, neste trabalho com os textos dos alunos, por deixar exposta a urdidura de suas tramas, inclusive com os tropeços eventuais e iniciais que fazem parte do trabalho de qualquer tecelão.
A partir das leituras e análises de crônicas, proponho um tema que é discutido. Cada um, ao longo da semana, posta sua crônica. Leio, comento. Todos têm o compromisso de rever e, se necessário, reescrever sua crônica após os comentários dos professores: corrigir erros ortográficos, rever pontuação, alterar a estrutura do texto, completá-lo, o que for. Devo dizer que o fato de o texto estar online, público e disponível para todos lerem, torna o processo de revisão e de cuidados muito mais significativo, para todos.
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E sobre o que falam os cronistas do 8º ano?

Este é assunto para a próxima crônica!

Até lá.

Luana Chnaiderman de Almeida

Professora e escritora

Para saber mais sobre os bordados que iluminam esta crônica:

https://www.facebook.com/pages/Matizes-Dumont/309842809129076

Para ler os blogs dos nossos alunos cronistas:

lululeitora.blogspot.com.br