Estará o Nada tomando conta da Terra?

Colégio Equipe

16 Março 2016 | 07h00

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O menino passou ao meu lado. Estávamos na rua da escola, a reunião havia terminado, era noite já. O menino, a mochila quase maior que o corpo, os cabelos um tanto compridos, camiseta, bermuda, andava sozinho na calçada. Me olhou, nos reconhecemos, paramos. Mal pude falar oi:

– Nossa Luana, impossível aquela questão que você deu de lição de casa.

– Qual questão?

– Aquela sobre o Nada. Impossível.

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Foi tudo o que ele disse. Continuou andando. Deixou-me ali, com o Nada e o impossível nas mãos. O pessoal ao meu lado, que ouviu com empatia a reclamação do garoto, ficou me olhando com ar perplexo. O que você anda ensinando para esses meninos, Luana?

Lição sobre o Nada? Coitados…

Explico: no sexto ano lemos o livro A História sem fim de Michael Ende. No livro há duas histórias, uma de Bastian, outra de Atreiú. As histórias começam a se entrelaçar assim que Bastian – um menino cuja mãe morreu, repetiu de ano, não tem amigos, sofre com perseguições pesadas dos colegas e um pai que não liga para ele – rouba um livro antigo, cabula a aula, se esconde no sótão da escola e começa a ler.

A história de Bastian, no livro, é escrita em vermelho; a história que Bastian lê, sobre a Busca de Atreiú, em verde. Nós, leitores, temos muita sorte, porque podemos ler as duas. Na história que Bastian lê, Fantasia está com um enorme problema, aliás, dois: a Imperatriz Criança está doente e o Nada está invadindo tudo.

O Nada não é escuridão, maldade, feiúra, corrupção. O Nada é o Nada. E está destruindo Fantasia.

Pois bem, líamos todos animados, já um pouco intrigados pelo mistério que é ler o livro que o personagem do livro está lendo, quando, cinco minutos antes do sinal, vem a fatídica lição de casa. Sim, não só as crianças são submetidas à leitura obrigatória, com prazos e quantidade de páginas semanais, como também devem responder questões sobre aquilo que leem. Dura a vida do estudante.

Eu, professora, não sabia que minha pergunta era tão difícil. Vinha junto com outras duas, uma que pedia a comparação entre Bastian e Atreiú e uma terceira da qual, confesso, já nem me lembro mais. A primeira pergunta me parecia simples, o tipo de pergunta que verifica a compreensão do texto e também a habilidade das alunas e alunos em emitir uma opinião, relacionar o conteúdo do que foi lido com sua própria experiência, sensibilidade e concepções de mundo e justificar seu posicionamento. Ok, talvez não seja tão simples assim…

E aquele menino havia me alertado. Eu havia dado uma pergunta impossível.

“Lição de casa. Pergunta 1:

– Estará o Nada está invadindo também a Terra?”

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Preparei a aula. Dez minutos para cada questão. Alguns leriam suas respostas, discutiríamos um pouco, faria algumas anotações simples na lousa, sintetizando as respostas, e iríamos para o próximo capítulo.

Mal sabia eu…

Tudo começou de uma maneira relativamente simples:

– Professora, o Nada só vai invadir a Terra se um asteroide gigante cair sobre nós. Aí sim. Aí só vai ter o Nada pra contar história.

Sorri contente. Ah… esses garotos, essas garotas do sexto ano, que ainda não conhecem os maravilhosos poderes conotativos das palavras, que ainda acham que o Nada é algo literal, tipo uma pedra gigante caindo sobre nossas cabeças… Meu sorriso durou pouco:

– Nada a ver. O Nada está sim invadindo a Terra porque as pessoas estão ficando cada vez mais sem memória…

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Parei. Deixei o giz descansando ao pé da lousa. Ainda não era a hora da síntese. Fui ouvir.

– Assim, professora, as pessoas não querem mais saber das coisas antigas, não frequentam mais museus… – Museus? Pensei. – Não vão mais à óperas… – Óperas? Talvez aqui eu não tenha resistido e talvez, confesso, tenha olhado para aluna com um leve franzir dos olhos, mas suspendi minha descrença, estendi os dez minutos, e continuei perguntando:

– Mas o que o Nada tem a ver com a Memória?

– Ué, se as pessoas esquecem dos seus passados as cabeças delas ficam vazias…

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Olhei para o chão um instante, peguei o giz, pronta para a síntese, olhei para a classe. São vinte e oito crianças. Havia pelo menos vinte braços levantados. Deixei o giz repousar mais um pouco e fiz o que cabe à professora fazer a essa hora: tentar determinar, com alguma sorte e intuição, quem levantou a mão primeiro – sempre torcendo para que ninguém morra de câimbra no braço.

– O Nada está sim tomando conta da Terra porque com a internet e os celulares todo mundo só fica ali, afundando na tela, vendo o que está ocorrendo no mundo virtual, olhando a tela a tela a tela e se esquecem de viver.

A essa altura, sentei para anotar o que eles falavam. Minha única função, impossível, era decidir, com alguma justiça, quem ia falar.

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Os braços esticavam-se cada vez mais, houve um, mais baixinho, que até subiu em cima da cadeira, todo elástico, talvez na esperança de que sua mão alcançasse, senão o céu, pelo menos meus olhos. Vai fala, – eu disse – para desânimo de outros vinte:

– As pessoas estão cada vez mais solitárias, isoladas, e por isso o Nada está dominando a Terra.

– Estamos ficando mais impacientes. Os adultos não têm nem tempo de imaginar nada.

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Não podia pensar muito, tinha que anotar, para depois fazer a síntese na lousa, e ainda havia as outras questões, e o capítulo seguinte… Próximo:

– O Nada está tomando conta da Terra por causa do consumo.

Levantei os olhos do caderno:

– Como assim?

– As pessoas estão consumindo muito, o tempo inteiro, uma coisa atrás da outra, e sempre querem a próxima coisa e por isso o Nada está tomando conta de tudo, porque fica tudo vazio.

– É! Cada vez mais as crianças não brincam e não imaginam nada e ficam mais em computadores, televisões e outras telas.

Aquilo estava indo longe demais. Tinha que impor limites. Tomei a palavra:

– Mas gente, vai dizer que vocês não querem ou já não tem um celular… que não usam internet… não jogam jogos eletrônicos…

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Ninguém se melindrou. As mãos continuavam levantadas. Restava-me indicar a vez do próximo, e anotar:

– Professora, a gente tem celular e tal, mas essas coisas acabam com a nossa criatividade.

– Os jogos podem dar muita imaginação, mas ao mesmo tempo deixam as pessoas trancadas em suas casas um bocado de tempo. Isso é muito ruim…

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– O Nada está invadindo a Terra porque as pessoas estão pensando menos.

– Os brinquedos vem todos prontos, a gente não precisa construir mais nada, já vem tudo pronto pra gente e a gente sempre quer o próximo, por isso o Nada está aí.

– As crianças têm cada vez menos imaginação, porque brincam menos, ficam só vendo tevê…

– Nada a ver. Os adultos é que ficam sem imaginação. Pelos menos os sem filhos.

– É. Os que tem filhos ainda têm alguma chance.

– Eu acho que não é nem as crianças que estão sendo invandidas pelo Nada, nem os adultos. Quem está sendo invadido pelo Nada são os adolescentes. Eles chegam da escola, almoçam em vinte minutos, se trancam no quarto e ficam ali, internet, celular, sem falar com ninguém…

Eu continuava anotando. As mãos ainda levantadas, os olhos arregalados, olhos pedintes voltados para mim: me chama, me chama, me chama… Havia desistido de qualquer justiça, chamei uma menina que me parecia ainda não ter falado. E então veio o momento da goleada Zygmund Bauman e seus amores líquidos:

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– O Nada está tomando conta da Terra porque as pessoas descartam umas às outras, como se fossem coisas, e ninguém tem paciência mais com ninguém.

Mal me recuperei, e a onda continuava, cada vez mais mãos levantadas, multiplicadas, vinte e oito, duzentos alunos na sala:

– A guerra e as brigas. Cada vez que há guerra, cada vez que há briga, o Nada aumenta.

– O lixo também causa o Nada. Os rios, os mares e algas, corais e seres da água estão morrendo e lá está virando um Nada.

– Os jogos, os jogos eletrônicos estão destruindo a cabeça das pessoas.

– Nada a ver, é maior da hora, você tá com vontade de matar alguém, vai lá, joga um pouco, mata um monte de gente no jogo, e a vontade passa.

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– Além do mais, é necessário muita criatividade por parte de quem faz os jogos…

– E por parte de quem joga?

– O Minecraft está vindo com coisas cada vez mais prontas…

– Minha mãe chama os jogos de toxinas mentais…

Olhei para o relógio. Faltavam cinco minutos para a aula terminar, para o sinal tocar, a discussão finalizar… a síntese, faltava a síntese. Mais algumas falas:

– As pessoas estão sumindo com as palavras da boca e as substituindo pelas mensagens de celular.

– Na minha opinião, o Nada está invadindo o planeta pois as guerras tiram as pessoas das suas terras, muitas pessoas morrem e lá fica um nada, com ninguém, só ruínas.

– O Nada em Fantasia tem o Atreiú para salvá-lo e aqui no planeta Terra temos o inconsciente para nos salvar.

Parei um instante de anotar. Inconsciente? Essa menina estudou Freud?

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O sinal tocou, acordando-me de minhas considerações. Deu tempo de mais um pedido:

– Pessoal, pessoal, com base na discussão, revejam e completem suas respostas!

E aqueles pequenos filósofos que outrora discutiam com tanta propriedade tantas questões essenciais à existência contemporânea levantaram-se, arrumaram os cadernos, estojos, vieram pedir para beber água, reclamar que não foram chamados, contar que não havia nada o que completar na resposta já escrita. Ficou uma menina, ao meu lado.

– Professora, posso falar agora o que eu queria falar e não falei?

– Fala.

– É que eu queria falar que nada substitui o encontro real e o verdadeiro contato humano, o corpo a corpo, o olho nos olhos…

Olhei para aquela garota tão séria, do alto dos seus dez? onze? anos de idade.

Fui para a outra aula, com três páginas do meu caderno preenchidas, preparando-me para preencher mais três. A aula preparada ficaria para outro dia. Lembrei da crônica de Drummond, “No Restaurante”, sobre a menina que quer e conquista sua lasanha, e que termina assim:

“se, na conjuntura atual, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem”.

Fui para casa com vontade de conversar com o Michel Ende, agradecer-lhe e contar para ele que, mesmo em tempos de muitas brigas, falta de memória e bastante obscuridade, o Nada ainda está longe de invadir a Terra. Porque há muitos meninos e meninas que pensam muito. Fazem lições impossíveis. Tomam todo tempo de nossas aulas. E resistem.

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Nota: no Equipe há dois sextos anos, essa crônica é uma síntese das aulas acontecidas nas duas classes. Digo isso para que ninguém se sinta melindrado ou reduzido a… sei lá… nada! E obrigada, Sexto A e B, pela aula que vocês me deram.

Luana Chnaiderman de Almeida
Professora de Português do Colégio Equipe do 6º e 7º anos, autora do livro Minhocas, Cosac e Naify.