Estão todos perdoados?

Colégio Equipe

14 Abril 2015 | 14h33

The cover of satirical weekly of Charlie Hebdo is seen in this handout image
Leituras a partir do atentado ao jornal Charlie Hebdo
17 a 24 de março de 2015

 

A escola e o mundo

Em meio à rotina escolar, aos conteúdos pré-estabelecidos, a um caminho curricular pensado e diretivo, em meio às matérias e às provas, aulas, revisões, conselhos, reuniões… o mundo acontece.

É objetivo do Colégio Equipe não somente preparar seus alunos para a construção de seus futuros neste mundo, mas também para a sua atuação crítica dentro dele. Na busca de uma formação, ao mesmo tempo ligada à tradição e à transmissão de saberes e às novas questões que a sociedade, a cada dia, nos impõe, a escola tem se proposto discutir e debater com seus alunos acontecimentos contemporâneos que exigem estudo e reflexão.

Assim, o Ensino Médio alterou sua rotina e dedicou várias aulas, durante uma semana, a diferentes reflexões e leituras a partir do atentado ao jornal Charlie Hebdo, ocorrido em Paris no dia 7 de janeiro. Vários professores de diferentes áreas pensaram uma abordagem específica a ser compartilhada com os alunos, que tivesse a ver com a perspectiva da sua matéria, mas que também contribuísse para que nossos estudantes pudessem refletir sobre as diferentes questões que o evento suscita.

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O evento Todos estão perdoados? Leituras a partir do atentado ao jornal Charlie Hebdo ocorreu entre os dias 17 e 24 de março de 2015. Os recortes propostos para as diferentes leituras foram: os elementos da cultura e religião islâmica, as diferentes repercussões do atentado na mídia, humor e cultura, relações entre o colonizador e o colonizado.

Todos os alunos do Ensino Médio participaram das aulas. Os professores envolvidos prepararam suas aulas considerando o recorte temático e a diversidade dos alunos das diferentes turmas.

O professor Antônio Carlos de Carvalho, de Geografia, propôs como questão norteadora de sua aula: A (in)tolerância radical. O que se procurou discutir foi o papel da religião na cultura islâmica; a ideia era mostrar que associar islamismo a radicalismo é uma leitura muito recente, fruto da revolução islâmica de 1979. Além disso, procurou-se mostrar as inúmeras contribuições da cultura árabe ao ocidente, na matemática, nas ciências e na filosofia. O aristotelismo, por exemplo, só chega a nós graças à tolerância dos árabes em relação a outras formas de pensar. Até hoje contamos histórias da Sherazade, e assim por diante. Discutiu-se, principalmente, a questão inerente a todas as religiões: mesmo a crença sendo absoluta, isso não significa que ela tenha que ser impositiva e violenta. A regra de ouro das religiões “fazer ao outro o mesmo bem que se quer para si mesmo” se estende também ao islamismo.

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A professora Andrea Pizzutiello, de Espanhol, leu junto às classes notícias e editoriais de alguns jornais da Espanha e da Argentina sobre o atentado ao Charlie Hebdo. Com isso, pretendia fazer uma leitura crítica das diferentes perspectivas em relação ao atendado e como essas perspectivas, América Latina-Europa, engendram diferentes discursos e narrativas sobre o próprio atentado. Assim, através da leitura da​s manchetes e editoriais do dia 8 de janeiro de 2015, dia seguinte ao atentado, os alunos exploraram o vocabulário, e essa exploração revelou diferentes pontos de vista, conceitos e posições dos meios de comunicação europeus e latino-americanos.

Sob o título: “É só uma piada!”, o professor Gilberto Mariotti, de Artes, propôs uma discussão sobre o potencial de questionamento do humor gráfico, passando pela análise de cartuns, charges e caricaturas, tendo como pano de fundo a relação entre representação, crítica e censura. Assim, foram analisados cartuns do Henfil, críticos à ditadura brasileira; do Quino, críticos à ditadura argentina. Passou-se para os cartuns críticos à sociedade brasileira e seus costumes, Glauco, Angeli e Laerte nos anos 80 até hoje, numa atualização da discussão dos possíveis limites éticos do humor, colocada em síntese por uma charge de Laerte publicada recentemente. Em cada cartum as questões colocadas para a classe eram: Onde pega? Onde está o incômodo?

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O professor Iuri Pereira, em Português, montou uma aula para as primeiras séries: “Quando a palavra cão morde – Ideologia e violência em Paris”. Nessa conversa, foram discutidas as ideologias implicadas no atentado de Paris. De um lado, a ideologia religiosa e, de outro, a ideologia democrática, do estado laico e das liberdades civis. A ideia foi mostrar que a eclosão da violência é precedida por diversas formas de embate discursivo e ideológico.

Com as segundas e terceiras séries, foram discutidas as implicações do imperialismo europeu nos séculos XVI a XIX, propondo que a violência que atinge estados como a França e a Inglaterra pode ser vista como consequência da espoliação violenta praticada em muitos países reduzidos a colônias de exploração.

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Em História do Brasil, junto à professora Eliane Yambanis, todos leram o texto Limites do Humor, de Gisele Leite. A partir dessa leitura, discutiu-se a diferença entre o humor que permite a crítica e o humor que reforça preconceitos e elitismo. Nessa aula, a professora introduziu o conceito de hiper-realismo, criado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky, problematizando assim o papel das tecnologias de informação nas relações sociais da atualidade, enfatizando a agilidade com que conteúdos se propagam nas redes sociais, privilegiando, muitas vezes, a piada em detrimento dos sentimentos dos envolvidos.

Ao final, o Grêmio organizou um debate na quadra, intitulado: “Desmistificando o terrorismo islâmico e o papel da mídia e o contexto cultural e político dos atentados terroristas na França”.

Para o debate, foram convidados o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, e Lino Ito Bocchini, jornalista-editor online da Revista Carta Capital.

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