Abaixo a Ditadura!

Colégio Equipe

27 Junho 2017 | 09h23

Da minha sala eu ouvia uma gritaria no parque, uma agitação fora do comum. Só conseguia identificar “Fora” e alguma coisa que não entendia. Gritavam contra quem? Um colega? Um educador? Preocupei-me. Mas de tão assoberbada por outras tarefas, não consegui ver pessoalmente do que se tratava.

Logo não só fui informada do ocorrido, mas convocada a intervir. O que houve foi um protesto contra a empresa que fornece alimentação para a escola: era o nome dela que gritavam “Fora”. Alguns alunos do 5º ano tiveram a ideia de fazer um abaixo-assinado contra a empresa. Bem no horário livre em que estavam todas as turmas reunidas no parque. Daí foi um pulo para começarem a gritar palavras de ordem e a escreverem com giz seus protestos em todas as paredes. Se não foram todas, a maioria das crianças se envolveu na confusão…

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Felizmente a experiência e a autoridade de uma das professoras conseguiram acabar com a gritaria, e quando deu o sinal para o início das aulas, as turmas foram para suas salas. E agora? O que fazer? As coordenadoras me chamaram para pensarmos juntas.

Aqui na escola, um dia por semana, as crianças têm período integral, organização que permite um currículo mais diversificado, com oficinas de livre escolha, aulas de biblioteca e mais tempo para brincarem juntas. E é justamente nesse dia que elas são obrigadas a almoçarem na escola. Como nossa cozinha não tem condições físicas de produzir a refeição, contratamos uma empresa especializada.

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Claro que foi escolhida com muito critério e cuidado! Além de fornecer comida equilibrada e saudável, também se preocupa com a educação alimentar das crianças. Por isso seus responsáveis visitam a escola para contar como a comida é feita, como definem o cardápio e ainda pedem sugestões para as crianças para melhorarem a aceitação de todos os alimentos. Muitas vezes a reclamação dos alunos não é em relação à comida propriamente, mas porque insistimos que devem comer verduras e proteínas, e alguns prefeririam comer apenas os carboidratos. E foi o que gerou o protesto, pois alguns alunos do 5º ano só queriam comer macarrão.

Certamente as crianças passaram do limite! A situação não era simples. Levadas umas pelas outras, elas passaram a agir de forma descontrolada. E o descontrole é sempre perigoso. Como explicar que protestos devem ser frutos de decisões pensadas e planejadas e não de movimentos espontâneos? O que foi combinado é que eu entraria nas salas para dizer que a atitude delas no parque tinha sido desrespeitosa para com os educadores, para com a escola, e também entre elas, pois há crianças que gostam da comida.

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No 5º ano, aos que iniciaram o movimento não permiti que falassem. Expliquei que não estava ali para conversar, mas para deixar claro o desacordo da escola com a forma como agiram. Depois poderiam conversar na aula de orientação de estudos que tem todas as semanas. Já nas outras turmas, quando algumas mãos se levantaram, dei a palavra:

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− Nós rabiscamos a parede, é verdade, mas o 1º ano não escreve só na lousa e no papel, eles desenham e escrevem na parede e de canetinha.

− Mas não é só porque o primeiro ano rabisca a parede que precisamos fazer o mesmo – contrapõe a colega.

− É, eu assinei o abaixo-assinado, gritei e rabisquei a parede, mas depois eu vi que não foi legal. O meu amigo, por exemplo, gosta da comida e ele ficou chateado.

− A gente viu que ficou tudo sujo; e na aula livre, a gente decidiu limpar a parede.

− Eu vi que algumas crianças resolveram limpar e gostei da inciativa, mas quem vai limpar mesmo é a escola porque precisa de produtos de limpeza que eu acho melhor vocês não manusearem – expliquei.

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Mais ainda tinha uma mão levantada:

− Eu vi todo mundo escrevendo na parede e eu achei que podia; eu só entendi que não podia quando a professora falou, mas aí eu já tinha feito o F…

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E de fato os protestos e a comida da escola foram pautas da aula de Orientação de Estudos com a professora e a orientadora do 5º ano. Os alunos justificaram ter planejado apenas o abaixo-assinado e reconheceram que logo virou gritaria e pichação. Entretanto ficaram surpresos de que antes de protestar deveriam utilizar os espaços de diálogo da escola. Para eles a insatisfação já deveria ser expressa na forma de protesto, como os adultos estavam fazendo nas ruas!

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E, ao falar da alimentação da escola, parte dos alunos não tinha reclamações a fazer e todos apontaram alimentos que gostam. Reconheceram que algumas sugestões não poderiam ser atendidas (sushi e alguns tipos de fritura) e que as regras da escola de escolherem ao menos dois tipos de alimento e de comerem o que colocaram no prato, já que são eles que se servem, faz sentido. Por meio da professora e da orientadora, a escola ouviu e encaminhou as sugestões pertinentes.

Como ouvir e não se encantar com as reflexões que fizeram? Certamente a bronca-conversa não foi suficiente para evitar novos atos impulsivos e descontrolados. Mas espero que tenha colaborado para o longo aprendizado que virá a se desenvolver sobre o que e como protestar.

 

Luciana Fevorini
Diretora Escolar

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