A passagem do Ensino Fundamental para o Médio

Colégio Elvira Brandão

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Educação – A transição do 9º ano para a 1ª série do Ensino Médio é mais uma das importantes e marcantes passagens que os alunos vivenciam durante a educação básica. Somados a essa fase, estão ainda os assuntos pertinentes a adolescência e uma demanda maior por responsabilidades, tornando o momento mais complexo. Para entender as questões relativas a essa fase, os gestores educacionais do Colégio Elvira Brandão, Betina Dauch e Thiago Bettega, formados em psicologia, contemplam, nessa entrevista, os desafios para os alunos, como a escola pode atuar nesse processo e como a família também pode ajudar. Confira.

Diferente dos alunos do 9º ano, a turma da 1ª série do Médio não usa uniforme

O que envolve a passagem do Ensino Fundamental para o Ensino Médio? Thiago: O grande impacto é que o Ensino Médio representa o último estágio [em um Colégio]. Culturalmente, pelo menos, é estabelecido dessa forma. Além disso, nas conversas com os alunos, há um sinal de cobrança, quando perguntam: mas e agora, como vai ser o vestibular? ou e se eu fizer isso, como vai ser? É uma afobação um pouco desnecessária, porque na verdade, eles estão em um processo de construção. Nós [sociedade] estabelecemos uma ordem cronológica, mas ela não é real.

Betina: Eu vejo essa transição dividida em duas esferas. Uma no lado acadêmico, pois esse é um momento em que a sociedade entende que o aluno está entrando da vida adulta e se preparando para o vestibular e para futuramente ter uma profissão. Tem outro lado que é a questão da própria identidade deles. Tenho a impressão de que eles sentem que precisam abandonar a infância de vez, ainda mais aqui [no Elvira Brandão] que, na passagem para o Ensino Médio, já não precisam mais usar uniforme. E essa passagem é muito simbólica, pois quando você compara como eles eram no 9º ano [último ano do Ensino Fundamental] com uniforme e como eles são agora sem, é muito diferente, porque parece que eles se permitem reconhecer a própria identidade, afinal a roupa é um mecanismo de se mostrar para o mundo.

Essa transição é um processo natural? Thiago: Eu não acho que seja natural. Acredito que poderia ser muito mais confortável, mas dá para ver que existe uma ordem de organização, tanto da sociedade quanto da Instituição Escola, que empurra uma pressão totalmente desnecessária. Assim, o aluno tem grande chance de se perder nesse lugar, pois ele “precisa” tanto descobrir quem ele é que pode acabar optando por aquilo que está mais próximo dele ou, às vezes, por algo que a família lhe impõe. Dessa forma, ele não vai conseguir dizer realmente o que ele quer. Talvez os alunos não consigam dizer exatamente o que fazem aqui, mas é algo muito maior que só a transição.

Betina: Eu acredito que tem uma parte que é natural da idade, e mesmo uma criança que não seja escolarizada, vai passar, que é a construção da identidade. Nessa fase da adolescência, o ser humano vai se construindo enquanto sujeito e a personalidade vai se formando. Isso, sim, é natural do desenvolvimento. Mas a forma como as escolas fazem isso, força um ritmo que, provavelmente, não seja o ritmo de todos. Esse imaginário que o Ensino Médio ocupa acaba forçando um desenvolvimento que poderia ser diferente.

Alunos do 9º ano em aula de Língua Portuguesa.

Como as características próprias da adolescência interferem nessa fase escolar? Thiago: Depende muito do processo de cada aluno, mas percebo que isso [a interferência] vem na forma de questionamento, o que é muito interesse. Nesse momento o adolescente está se identificando enquanto sujeito e tem uma necessidade de pôr em xeque tudo aquilo que está fora. Eles sentirem que podem, sim, construir o próprio protagonismo e não só receber de fora, é algo bem positivo, já que se fortalecem para se relacionar com o externo. Além disso, dependendo de cada caso, pode acontecer de vir à tona uma certa apatia, porque “eu tenho outras questões pulsando em mim” e se a escola “não faz sentindo”, ela ficará em último na lista de prioridades, porque tem a questão da sexualidade surgindo, o corpo desenvolvendo e muitos interesses que se quer buscar. Se a escola não puder se atrelar a isso, fica algo sem sentido, sendo que esse é o momento de encontrar os sentidos.

Betina: Justamente por eles serem muito intensos nessa fase da vida, por terem muitas paixões, é um momento muito potente na hora de fazer alguma atividade escolar. Há muitas possibilidades de engajamento ao se apaixonarem. O problema é que a Instituição escola tem uma capacidade de abafar isso, como se isso fosse algo ruim. O segredo está em pegar essa intensidade e trazê-la para um contexto que interessa, pois se eles se interessam, eles mergulham de cabeça. A escola precisa entender qual é o jogo dessas relações e, com isso, impelir o engajamento.

Como o Elvira tem trabalhado esse momento de transição do Fundamental para o Médio? Betina: No 9º ano, os alunos têm momentos de fechamento de ciclo. No final do ano, por exemplo, eles constroem uma cápsula do tempo e escrevem sobre quem eles são hoje e sobre os desejos futuros. É como se eles tivessem se abrindo para um novo momento. Isso é muito importante, já que nesse processo eles conseguem dar conta de elaborar muito do que eles passaram e dá um impulso para o novo. No final do ano, nós fazemos uma fogueira, tem um momento de acolhimento. No 9º ano, diferente dos outros ritos de passagem, a gente entende que é necessário essa sensação de grupo e os alunos se emocionam muito.

Thiago: Tem também um outro trabalho que estamos fazendo, e não só no 9º ano: estar presente nas salas para discutir a rotina deles a cada 15 dias. Isso serve para conversar sobre tudo que eles passam.

Betina: Neste ano, nós estamos muito próximos da turma da 1ª série do Médio. Pois, além deles terem passado pela transição do Fundamental para o Médio, eles passaram por um momento de mudança da própria escola.

Estudantes do 9º ano fazendo apresentação sobre o livro Capitães da Areia.

O que os alunos têm trazido nessas conversas quinzenais? Betina: Eles trazem questões do outro, muitas coisas vêm na forma de queixa, mas eles têm conseguido em muitos momentos pensar sobre o próprio processo deles. Eles reclamam de um professor que é muito rígido, mas dizem que o professor que não é rígido eles não conseguem respeitar, ou seja, os próprios alunos chegaram a conclusão “o que a gente vai receber do outro vai depender da forma com que a gente se relaciona com ele”. Os adolescentes estão questionando sua própria noção de maturidade e passaram a se responsabilizar mais e não apenas colocar a culpa no professor.

Thiago: É também um processo de apropriação deles sobre o espaço. Muitas vezes questionam “esse modelo vai dar conta de suprir nossas necessidades para o vestibular?” Nós debatemos o que é esse “dar conta do vestibular”. Esse espaço de diálogo é bem importante, pois temos a possibilidade de conversar sobre a educação e fazer com que eles se apropriem disso. Isso é muito rico e é o que a gente espera de uma escola.

Como funciona essa transição para alunos que chegam de outros Colégios? Betina: Geralmente temos aqui [no Elvira] um grupo de alunos que acaba se mudando de Colégio no final do 9º ano. Até ali, eles têm uma identidade muito forte, mas que essa transição já fica mexida. Logo, quem entra, não se vê fora de um grupo completamente unido, pois os que já estão aqui também estão se reestruturando em uma nova dinâmica. Nós temos um exemplo aqui, que os alunos mais atuantes da 3ª série do Ensino Médio, entraram no Colégio na 1ª série do Médio. Pelo menos aqui, essa situação é bem tranquila.Caso venha a acontecer um problema de adaptação, nós tentamos observar isso e fazemos algumas intervenções com a própria pessoa, de uma maneira bem respeitosa, até para não expor esse adolescente e tentando abrir para uma escuta. E contando com os professores como parceiros, já que eles estão ali no dia a dia e podem contribuir, por exemplo, para a formação de vínculos.

Turma do 9º ano na sala de aula.

E as famílias, como elas podem atuar nesse momento? Thiago: É um pouco mais delicado, pois cada família tem sua cultura ou crença, a respeito do significado dessa fase.. Existem alguns pais que acreditam que os filhos precisam a partir de agora “pegar firme” nos estudos, pois tem um vestibular pela frente. Já outros são mais tranquilos, respeitando o tempo do aluno. Não tem uma fórmula pronta para a família.

Betina: A forma como os pais podem ajudar os filhos, é de não projetar nos adolescentes um desejo que é deles. E estar aberto, de fato, a olhar o filho como um sujeito que tem seus próprios desejos. Se possível, ofertar também as ferramentas para que ele se conheça. Além disso, os pais precisam passar por um processo de entender que não são donos dos filhos. Se ele conseguir mostrar para o filho, que este não precisa suprir as expectativas da família, e que ele possa usar esse tempo em ebulição, para ele entender quem ele é, essa pessoa será muito feliz.

 

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