Sobre viver de uma forma diferente

Sobre viver de uma forma diferente

Colégio Bandeirantes

19 de setembro de 2020 | 11h18

Da Itália chegavam notícias pessimistas. Logo as notícias iam se espalhando e era claro que a COVID chegaria ao Brasil. Restava tentar entender como o mundo iria se comportar, sem fazer juízo de valor se as decisões estavam certas ou erradas, mas sim,  se preparar para o cenário realista que iria se impor.

Mesmo torcendo para que o lockdown não acontecesse, a cada hora que passava ficava mais claro que seria inevitável. O desafio que se colocava era como manter a escola funcionando fora do prédio. Somos 2.6 mil alunos e, aproximadamente, 500 colaboradores, entre equipes pedagógicas, de suporte e administrativo.

O tempo era curto e a estratégia passava por: não inventar nada novo e usar ao máximo aquilo que já havia sido incorporado na cultura da escola.

Todo nosso material didático, com exceção de apostilas de exercícios, já era digital. A esmagadora maioria dos professores já sabia postar apostilas, exercícios e aplicar avaliações no nosso LMS (Learning Management System). Em 2019, foram aplicadas mais de 150 mil avaliações e milhares de trabalhos haviam sido entregues usando essa plataforma. Alguns professores já estavam gravando aulas e publicando-as na nossa plataforma de vídeo. Os alunos já estavam acostumados a usar toda essa tecnologia e ainda sabiam que, pelo App que desenvolvemos, a notificação da falta de entrega de tarefas e as notas dos trabalhos e das avaliações estariam disponíveis para eles e suas famílias.

Portanto, já tínhamos um capital digital que permitia criar uma trilha didática online: aula, avaliação e feedback.

Naquele momento, tínhamos um projeto piloto em andamento que era o uso das Apple Pencil pelos professores. Cerca de 30% deles estavam usando e aprovando a nova tecnologia. Corremos e, em tempo recorde, entregamos essa nova ferramenta para todos os professores que quiseram, mais de 80% do total. Isso poderia facilitar muito a gravação das videoaulas.

Outro ponto em que precisávamos agir com rapidez era deixar os professores mais confortáveis com técnicas de gravação de videoaulas. Para isso, contratamos uma empresa especializada que montou dois estúdios na escola e, durante uma semana, ensinou muitos professores a gravarem suas aulas.

Sabíamos que, mais do que nunca, os professores seriam os grandes protagonistas desse momento remoto e precisávamos dar todo apoio possível para eles.

Toda infraestrutura de máquinas, softwares e estratégias de publicação de aulas estava definida. Mas, apesar de a de escola ser o pedagógico, ela precisaria de todos os outros departamentos para dar suporte, entre eles o próprio suporte de tecnologia. Foi então que viabilizamos toda infra para que os departamentos funcionassem. De computadores para as pessoas até a criação de redes para facilitar o acesso às informações com segurança.

Administrativo, ok! Pedagógico, ok! Tecnologia, ok! Era esperar a decisão do governo. E quando ela chegou estávamos prontos para entrar na nau do lockdown e começar mais um novo processo de aprendizagem.

Mesmo a escola tendo a tecnologia como uma característica histórica e termos iniciado o processo de Cultura Digital no final de 2013, nunca a tecnologia tinha assumido um papel tão importante. Se a tecnologia não funcionasse, a escola não funcionaria e, mesmo que toda a comunidade tenha desenvolvido as competências digitais, o papel da tecnologia sempre foi apoiar a educação presencial. Nunca pensamos em usar a tecnologia para o Ensino Remoto.

No primeiro dia remoto, tínhamos 98% dos alunos conectados e estudando a distância. Os professores já tinham postado as aulas da 1ª semana.

Novas necessidades iam surgindo e, nesse momento, vimos que nossa decisão, também em 2013, de colocar todos os servidores em nuvem tinha sido correta. Não precisávamos nos preocupar em comprar mais máquinas ou memória, se precisávamos de mais, era só deslizar um botão no site e colocar mais máquina ou mais memória quase que instantaneamente.

Veio o segundo dia e 98% dos alunos estavam lá de novo. E isso foi se repetindo dia a dia. O desafio passava a ser manter o engajamento. Foi então que decidimos fazer uma pesquisa com os alunos para que eles avaliassem a escola 100% on-line e nos dessem dicas de como melhorar. E quem trabalha com esses jovens sabe o quanto eles são generosos. Vieram muitos elogios e muitas sugestões de melhorias. Nos dedicamos a implementar as melhorias com rapidez; além de melhorar o processo, era importante que eles se sentissem ouvidos e que sentissem que suas sugestões foram valorizadas. Essa pesquisa deu tanto resultado que resolvemos fazer uma segunda no final do 2º Bimestre e, nesse mesmo momento, ampliamos a escuta para os professores.

Chegamos hoje ao final do 3º bimestre. Os números são espetaculares : 357 mil avaliações feitas pelos alunos; 450 mil trabalhos entregues; 99,4% dos alunos fizeram provas durante as semanas de provas; a média de presença diária foi de 98,5%; os professores se encontraram com os alunos 7.891 vezes via Zoom; da mesma forma que, usando essa ferramenta, 4.592 encontros entre alunos aconteceram; foram criadas 9.571 videoaulas que atingiram a grandiosa marca de 1.305.047 visualizações.

Tudo isso foi possível porque o espírito que rege a escola traz como valores: Excelência, Confiança, Pioneirismo, Aluno no Centro e Interdependência.

Deu certo porque temos professores altamente engajados, uma equipe técnica e administrativa que trabalha com brilho nos olhos e alunos com autonomia e dedicação de emocionar qualquer pessoa que goste de educação.

Em breve, estaremos de volta ao convívio presencial e teremos vivido uma experiência marcante e transformadora. Não seremos os mesmos, estaremos melhores. Melhores por ter aprendido sobre viver de uma forma diferente. Aprendido que o mundo pode funcionar de várias maneiras. E que a vida pode pregar peças. Só temos que estar abertos para ouvir o que ela tenta nos dizer, e viver com alegria!

Emerson Bento Pereira
Diretor de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes

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