Filosofia e arte como visible thinking

Filosofia e arte como visible thinking

Colégio Bandeirantes

01 Abril 2015 | 09h51

Um dos maiores desafios a serem enfrentados por alunos ou por qualquer pessoa em busca do aprimoramento de seus recursos expressivos é tornar-se apto a produzir raciocínios lúcidos e bem estruturados, a concatenar e ordenar logicamente ideias em um argumento, bem como a produzir textos que possam tirar proveito de tais habilidades. Essas competências, vinculadas ao desenvolvimento do pensamento racional, não esgotam os recursos expressivos,  que podem ser também de natureza irracional ou estar para além da palavra (como na pintura ou na música), mas são requisitos básicos para a comunicação.

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Recentemente, em palestra do prof. César Nunes no Colégio Bandeirantes, cujo currículo inclui trabalhos junto à Escola do Futuro da USP e do Núcleo de Pesquisas sobre Inovações Curriculares da Faculdade de Educação desta mesma universidade, fui apresentado ao conceito de “visible thinking”, que me pareceu ser um aliado promissor, enquanto recurso pedagógico, no enfrentamento dos desafios que mencionei acima. Essa abordagem é proposta por pesquisadores da Universidade de Harvard, dentre os quais podemos destacar os trabalhos de Ron Ritchhart e de David Perkins, ambos da Harvard Graduate School of Education. De imediato, ocorreu-me que tornar o pensamento visível (bem como seus processos), explicitá-lo e analisá-lo talvez seja a vocação primeira da filosofia, ao menos no que se refere à teoria do conhecimento e à filosofia da ciência. Isso é feito, segundo essa proposta pedagógica, não apenas por epistemólogos, pedagogos ou pelo professor, mas, principalmente, pelos próprios alunos, que entram em contato, vivenciam e mergulham em seus próprios processos de raciocínio, que são construídos, explicitados e avaliados coletivamente em um processo metacognitivo (ou seja, procura-se conhecer como o conhecimento se dá). A observação mútua da reflexão dos membros do grupo, à medida que enfrentam questões propostas pelo professor, é complementada pela análise do modo como os argumentos e ideias surgiram e se articularam no grupo.

A condução das atividades é feita segundo rotinas simples de pensamento, traduzidas em questões não necessariamente complexas, mas instigantes. No caso das artes, por exemplo, em uma atividade voltada à análise e leitura de obras de arte, podem ser propostas questões como: o que você vê na obra? O que você pensa disso? O que o impressiona nessa obra? O que mais você se sente impelido a buscar a partir disso? Tais questões servem de pretexto para disparar as reflexões, cuja estrutura e processos serão analisados sob lupa. Como extensão desse tipo de procedimento investigativo, adaptando-o especificamente ao âmbito das artes, é possível analisar pormenorizadamente os processos criativos, as técnicas e o modo como o artista (que pode ser o próprio aluno) pensa e repensa a obra à medida que nela trabalha. O confronto dos diferentes processos de raciocínio elaborados pelos diferentes alunos-artistas enriquece ainda mais a experiência. É possível, ainda, trabalhar a noção de autoria ao compartilhar reflexões e impressões sobre uma obra de arte, revelando que o significado da obra não é simplesmente revelado aos alunos, mas construído coletivamente por eles.

Ter ciência de seus próprios processos cognitivos e de seus pares contribui para que o aluno possa ter melhor domínio de seus constructos argumentativos. Consequentemente, e isso já foi detectado pelos pesquisadores, observa-se um aprimoramento das habilidades relacionadas com a fala, com a leitura e com a escrita. Estudantes relataram, por exemplo, que essas rotinas de pensamento os ajudaram a estruturar suas reflexões antes da redação de textos, o que aumentou tanto sua confiança quanto o tempo dedicado a essa tarefa. Além disso, professores relataram que, havendo maior visibilidade dos processos cognitivos dos alunos, é possível acessar melhor os problemas de aprendizagem e aperfeiçoar as estratégias de ensino.

Os interessados em aprofundar o conhecimento acerca do “visible thinking” poderão fazê-lo acessando o site: http://www.pz.gse.harvard.edu/visible_thinking.php .

João Epifânio Regis Lima
Coordenador de Artes
Colégio Bandeirantes