A História à nossa frente

A História à nossa frente

Colégio Bandeirantes

31 Março 2016 | 16h11

por Hubert Alquéres

Professores e coordenadores pedagógicos das melhores escolas de todo o Brasil têm corrido para atualizar suas aulas e preparar seus alunos para acompanharem e entenderem as grandes mudanças que a humanidade vive nestes tempos. No Bandeirantes isso não é diferente.

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Alguns exemplos destas mudanças são as grandes correntes migratórias, terrorismo em ações chocantes ou o fim de situações que pareciam eternas como a intransigente relação entre Cuba e os Estados Unidos. No Brasil, a importante estabilidade das instituições democráticas e as mobilizações da sociedade, até nas ruas, também têm marcado discussões acaloradas em salas de aula.

O que estamos assistindo é isto. É a história acontecendo à nossa frente. Aqui dentro e lá fora.

No caso de Cuba, há muito o que refletir e aprender. Por décadas a economia da ilha caribenha sobreviveu graças à solidariedade dos países camaradas do Leste Europeu e aos grossos subsídios da União Soviética- cerca de seis bilhões de dólares, anualmente. A “solidariedade” tinha duas justificativas: o bloqueio norte-americano (um anacronismo que urge ser arquivado) e a guerra fria.

O século passado foi marcado por avanços fantásticos. O homem conquistou o espaço. A cibernética e a informática contribuíram para o planeta ser verdadeiramente uno, uma grande aldeia global.  E nos seus últimos anos a democracia se afirmou como o grande e vitorioso valor.

Mas teve também suas grandes tragédias, entre elas a divisão do mundo em dois grandes blocos separados, literalmente.

Estivemos na iminência de um holocausto nuclear em outubro de 1962, com a crise dos mísseis de Cuba. Ali a humanidade esteve por um fio.

O muro de Berlim caiu, o odiento regime do Apartheid da África do Sul foi deixado para trás, mas o bloqueio a Cuba e o anátema entre os EUA e o país dos irmãos Fidel e Raul Castro atravessaram o século.

Com o fim da União Soviética a economia cubana entrou em colapso, com desabastecimento, rígidos racionamentos e grandes privações para sua população. Até por instinto de sobrevivência, o regime cubano se viu obrigado, a partir da primeira década deste século, a promover algum grau de abertura na economia. A tolerar certas atividades da iniciativa privada, sem abrir mão, contudo, do controle dos meios de produção – e da própria sociedade – pelo Estado.

Certamente contribuiu para o hermetismo de Cuba a política de sucessivos governos dos Estados Unidos, adotada por mais de cinquenta anos. Esta política respondeu o anátema com o anátema, buscou asfixiar o regime cubano, na vã ilusão de que Cuba se transformaria em uma nação democrática por interferência externa.

Nada disto deu certo, como, corajosamente, reconheceu o presidente Obama, há um ano. Tornou-se necessária sua substituição por outra política, pautada no entendimento, na convivência pacífica, na soma de esforços para integrar Cuba à comunidade internacional.

Ao visitar Cuba nesta semana e dar um passo inexorável para a normalização das relações entre seus países, Barack Obama deu enorme contribuição para a humanidade deixar para trás uma das maiores vergonhas do século XX. Ao pisar no solo cubano, Obama enterrou os restos da guerra-fria, como brilhantemente descreveu em seu histórico discurso.  E ela não deixa a menor saudade.

Daqui a 20 ou 30 anos, quando nas nossas salas de aula estarão os filhos dos nossos alunos atuais, o 22 de março de 2016 será estudado como o dia em que os EUA e Cuba superaram barreiras aparentemente intransponíveis e deram uma demonstração de que povos e países de sistema diferentes podem e devem conviver pacificamente.

Só por isto, Barack Obama já tem lugar na história e entra para a galeria dos grandes homens que colaboraram para a paz, para um mundo mais fraterno, democrático e socialmente mais justo.

 

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Hubert Alquéres é diretor no Colégio Bandeirantes, membro do Conselho Estadual de Educação (SP) e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Lecionou na Escola Politécnica da USP, no Bandeirantes e na Escola de Engenharia Mauá. Foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo (1995-2002) e presidente da Imprensa Oficial do Estado (2003-2011).