Preservando a cultura da infância: o desenho como expressão e reflexão

Preservando a cultura da infância: o desenho como expressão e reflexão

Colégio Anglo 21

16 Novembro 2016 | 11h08

*Por Cintia Fondora Simão

Em textos anteriores, neste blog, tratamos do ensino de Arte no Colégio Anglo 21. Este texto, em especial, faz uma breve análise de um percurso de intervenções sobre o desenho da criança pequena.

Para essa criança, o desenho é sua linguagem natural, que lhe abre portas de encontro com o mundo ao seu redor na medida em que lhe permite narrá-lo, interpretá-lo, incorporá-lo em suas expressões. A vibração que a criança apresenta ao desenhar pode não ser acessível a muitos adultos, que vão perdendo a espontaneidade em aventurar-se nas marcas gráficas que poderiam produzir. E se ocorre essa perda, isso tem muito a ver com a escola que frequentamos quando fomos crianças.

O desenho, a linguagem natural na infância, aprimora-se com intervenções do ensino. O currículo escolar e a presença do professor fazem diferença na produção da criança, porque a coloca em situações que fomentam seu potencial nessa linguagem. Na escola da infância, vemos o trabalho da criança sobre o desenho como importante percurso de expressão. Desenhar, escrever e utilizar todas as outras linguagens que cabem entre essas duas é o que desenvolvemos no projeto pedagógico da educação infantil do Colégio Anglo 21.

O professor, importante e experiente interlocutor da criança em suas produções, expressões dos seus pensamentos e saberes, visa a ampliar suas possibilidades, com intervenções muito intencionais. E pode um adulto interferir na espontaneidade da criança? Sim, e até deve, pois este é o papel da escola: ensinar. Mas é preciso saber intervir, ter clareza de objetivos, conhecer os processos de aprendizagem e o objeto de ensino e, sobretudo, garantir à criança o lugar de autoria em sua produção. Não falamos de aproximá-la de modelos de certo ou errado, bonito ou feio, e sim de proporcionar-lhe diferentes experiências estéticas, a fim de que ela encontre a sua própria.

A professora Adriana Patarra, em sua turma de crianças entre 3 e 4 anos, com muita sensibilidade para suas produções e para o processo de cada uma delas enquanto desenhavam, considerava seus traçados presos, pouco espontâneos, sem a expressividade que poderiam ter. A seguir estão ilustrados alguns passos de um roteiro de intervenção que chamamos no Colégio de “conhecer e soltar o traçado”. É com intervenção organizada e atenta aos modos de aprender da criança, que se permite a elas alcançar novos patamares nas suas competências comunicativas e de livre expressão. Quanto mais a criança souber por meio de experiências planejadas e orientadas pelo adulto, mais original ela será; quanto mais puder pensar sobre seus percursos, motivada pelas problematizações apresentadas por seus professores, mais autora de seu trabalho ela se tornará. A sala de aula é, sim, um espaço para apropriação de originalidades e autorias!

A professora propôs a brincadeira de produzir traços em suportes e meios pouco usuais para desenhar. As crianças começaram seus traçados com lãs e barbantes, produzindo marcas que podiam ser desmanchadas e traçadas novamente num jogo com a liquidez de traços não fixos nos suportes.

Imagem 1

Foram feitas também propostas de traçados fixos sobre o suporte, novamente usando meios pouco comuns para as crianças, sempre com a intenção de promover a percepção do traço e de seu movimento.

Imagem 2

A produção de Pablo Picasso, com seus desenhos em traço contínuo, foi a escolha para que as crianças se aproximassem de conteúdos da Arte por meio de apreciação e conversas sobre a produção do artista e seu traçado, que acabaram levando-as a refletir também sobre o próprio traço.

Imagem 3

Enquanto o pássaro do Picasso saíra para caçar minhocas, de acordo com a interpretação das crianças, o rato de Catarina estava a caminho do castelo da Branca de Neve.

Em outros momentos as crianças foram convidadas a utilizar planos não convencionais, o que é também uma intervenção que muda pontos de vista e abre um horizonte com mais informação e, consequentemente, mais inspirador.

Imagem 4

Quais são as linhas que não estão desenhadas no espaço, mas que se pode enxergar?

Esta foi mais uma proposta que representou um convite ao olhar apreciador das crianças para seu espaço mais cotidiano: desenhar sobre fotos do espaço escolar, dos objetos que utilizam cotidianamente em suas brincadeiras, identificando seus traçados.

Imagem 5

E mais uma intervenção, sempre presente, são as conversas sobre os desenhos, em que as crianças fazem perguntas sobre as produções umas das outras, contam como produziram, expressam suas apreciações. Na imagem, colegas comentam, sobre a produção de uma das crianças, que “está tudo desenhado”, referindo-se à forma como ela ocupou o suporte proposto.

Imagem 6

Sim, desenhar também se aprende. E escola é lugar de aprender.

E esperamos assim que nossas crianças sigam surpreendendo-se comesta atividade tão espontânea da infância.

*Cintia Fondora Simão é coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Colégio Anglo 21.

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