O espaço de decisão – ensaios para a autonomia

Colégio Anglo 21

01 Março 2017 | 12h49

* Lilian Ceile Marciano

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“… ser moralmente responsável implica ter liberdade de escolha, a qual implica fazer uso da inteligência”[1]

A maioria dos educadores e das instituições educativas tem em comum a intenção de favorecer a formação de alunos autônomos, críticos, cooperativos, conhecedores de seus direitos e deveres, capazes de tomar decisões e assumir responsabilidades.  Mas o que significa ser autônomo em cada uma das diferentes idades que frequentam o Ensino Fundamental I? Significa deixá-los fazer tudo sozinhos? Fazemos por eles? Como esperar atitudes autônomas de alunos que estão em fase de construção da autonomia? Deixamos que decidam e façam o que querem? Ou decidimos tudo nós, educadores, porque eles ainda não o sabem fazer com maestria?

Aqui no Anglo 21, temos por referência teorias e estudos de pesquisadores que entendem que os alunos aprendem a ler lendo, a escrever escrevendo, a calcular calculando. Também acreditamos que eles aprendem a decidir decidindo, a serem autônomos exercendo a autonomia. Mas o que isso significa exatamente?

Entendemos que garantir aos alunos espaços de escolha e de construção da autonomia implica planejar ações coletivamente e impregnar dessa premissa nossa rotina de trabalho. Essas ações estão previstas tanto nas atividades relacionadas ao convívio escolar como nas que envolvem aprendizagens nas diferentes áreas.

São diversas as situações em que nossos alunos tomam decisões referentes às questões de convívio: constroem juntos – professores e alunos – as regras de uso dos espaços comuns, decidem sobre as brincadeiras mais pertinentes para cada um dos espaços e sobre o uso dos brinquedos; decidem, em assembleias,  formas de resolver problemas de convívio que enfrentam em seu dia a dia; combinam regras para a troca de figurinhas/cards;  participam de discussões sobre dilemas morais e de rodas de conversa sobre acontecimentos de sua rotina. Essas decisões, além de serem tomadas coletivamente, são frequentemente avaliadas pelos grupos e modificadas sempre que eles julguem necessário.

Em relação aos estudos, também planejamos cuidadosamente o “espaço de escolha” dos alunos. Na roda de leitura, podem e devem fazer escolhas do título que será lido na semana, podem decidir se a finalização de um projeto de escrita de contos será em forma de livro impresso ou em versão virtual, se comunicam um estudo sobre um tema das ciências naturais por meio da produção de um blog ou de uma exposição oral ou, ainda,  quais serão os recursos que utilizarão para envolver a comunidade escolar na leitura de poesias, entre outros…

Claro que cada uma dessas decisões tem implicações, e acreditamos que nossos alunos, apoiados pela equipe de professores, sejam capazes de refletir sobre as opções e de se relacionar de modo afetivo e cognitivo com as demais pessoas envolvidas nesse processo, analisando prós e contras, aprendendo, paulatinamente, a sustentar com argumentos a preferência por uma ou outra proposta.

Entendemos que ao incorporar ao cotidiano dos nossos alunos os espaços de escolha e tomada de decisões, estamos colaborando para a formação de sujeitos autônomos, uma vez que vivenciam situações em que aprendem a considerar, antes de tomar uma decisão, as diversas possibilidades de ação, possíveis resultados e implicações. Com essas ações, pretendemos formar sujeitos que saibam ouvir e considerar pontos de vista distintos, buscando agir em conjunto com o outro pelo bem de todos.

Lilian Ceile Marciano é coordenadora do Ensino Fundamental I do Colégio Anglo 21.

[1] LA TAILLE, Yves de. Moral e Ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 73.