A infância sob os olhos de uma educadora

A infância sob os olhos de uma educadora

Colégio Anglo 21

10 Outubro 2016 | 14h01

* Por Cintia Fondora

Crianças no parquinho

Tenho na memória, viva, uma fotografia de minha meninice. Era festa da Primavera na escola. E lá fui eu para uma apresentação de algo, que não me lembro mais o que era. Minha mãe me vestiu com camisa e meia-calça brancas, calçou-me a conga vermelha, como solicitado. Minha professora completou com uma saia de papel verde e uma margarida de cartolina para adornar a cabeça, como mandava o figurino. Hoje me divirto e também me emociono diante dessa imagem.

Divirto-me com as concepções de crianças que norteiam tudo o que se propõe a elas, o modo como as vemos e lhes permitimos, ou não, viver a potência e a poética que carregam em si.

Emociono-me em pensar que era muito bom aquele tempo em que eram flores tudo o que pairava sobre a cabeça de uma criança. Porém, sempre há um porém. Ainda criança eu já sabia que não era sempre assim; os dias eram também nublados, misteriosos, enigmáticos; alguns até preocupantes.

Sim, crianças também têm preocupações, e seus dias são intensos; o certo e o instável, o bom e o ruim, o que acalma e o que amedronta alternam-se nas experiências vividas, e é preciso vivê-las. Assim podem crescer saudáveis. Quanto mais tiverem reconhecido pelos adultos ao seu redor seu modo próprio, provisório e verdadeiro de ver e explicar o mundo e as relações, mais seguras elas serão.

Em intenso convívio com crianças, é claro perceber que para elas nem tudo é simples, tranquilo, estável. Estão em segurança sim, porque são cuidadas por adultos pais, adultos educadores, adultos diversos. Mas o pensamento, aquilo que nem sempre compartilham, nem sequer deixam escapar, está habitado por muitos questionamentos. Estar em segurança é o que permite às crianças indagarem-se sobre os mistérios e também os limites que a vida impõe a todos. Por que não é possível brincar com a boneca agora e é necessário tomar banho, se há pouco brincava tranquilamente? Como a luz se acende com o simples movimento de um botão? Se não é para correr aqui, porque podemos trombar com outros, por que se chama corredor? Por que a mamãe não pode ficar a manhã toda na escola se é ela quem cuida tão bem? Onde está guardado o vento que balança as folhas da árvore que se pode ver pela janela? Todos os dias, depois da escola, é para casa que se volta? E depois de mais uma noite, é para a escola que se vai? Será assim para sempre? Quantas pedrinhas e folhinhas secas são necessárias para decorar um surpreendente bolo de areia? Todas as crianças vivem numa casa igual a esta? Perguntas divertidas, algumas profundas, outras complexas, e tantas, de verdade, sem resposta.

São muitas as perguntas que as crianças se fazem, e isso as mobiliza, ocupa, preocupa, enchem-nas de sentimentos diversos. Aquelas mais simples, mesmo que abstratas, referem-se a como o mundo funciona, o porquê das convenções, quem inventou tudo o que existe, enfim, tratam de assuntos que os saberes socialmente construídos podem explicar. Crianças pensam, e muito; formulam teorias que assumem como verdade, e são as novas experiências que lhes mostrarão sua provisoriedade. São potentes para formular soluções e enfrentar os conflitos cognitivos que os fatos lhes apresentam; é isso que as faz avançar. É assim também com os grandes pensadores de todos os tempos.

E as tantas perguntas enigmáticas, profundas, densas, aquelas que não imaginávamos que poderiam fazer, e não temos como responder? Dizem respeito à construção de subjetividades, à tomada de consciência de si, à construção de recursos internos para enfrentar o que é inexplicável, que ainda está sem nome. Nomear é diferente de explicar; não é de explicação que as crianças precisam muitas vezes, mas sim de um nome para afetos que circulam dentro delas. Não é tradução para o que sentem o que esperam, mas sim um espaço emocional de tranquilidade para colocarem em palavras algo que é só energia; colocar em palavras mesmo que não cheguem a dizê-las para nós. Sim, crianças têm direito ao silêncio. Crianças pensam, e é preciso deixá-las tranquilas para pensar.

Pois é, nem sempre o que paira sobre a cabeça das crianças são flores. Viver é enigmático também, e é isso que nos deixa vivos. Será que outras crianças podem guardar um bolinho de areia numa caixa de tesouros e escondê-la dentro de um armário? Todas? Do mundo inteiro? Crianças nos encaram com olhares que nem sempre podemos entender, porque não sabemos o que nos perguntam ou não temos como mergulhar na profundidade de seus calados questionamentos.

A poética dos grandes escritores produz uma imagem da infância que muito nos ajuda quando nos faltam palavras. Nosso grande Manoel de Barros (1916-2014), em seu belíssimo texto “Gratuidade das aves e dos lírios”, de 1999, indica o que nos falta quando chegamos à vida adulta:

“Queria descobrir por que os pássaros escolhem a amplidão para viver enquanto os homens escolhem ficar encerrados em suas paredes?

Sou leso em tratagem com máquina; mas inventei, para meu gasto, um Aferidor de Encantamentos.

Queria medir os encantos que existem nas coisas sem importância.”

Obrigada, poeta. Obrigada, crianças, por me mostrarem a dimensão encantada de um bolinho de areia no parque de nossa escola. Obrigada por me receberem, diariamente, no precioso território de sua infância.

Cintia Fondora Simão é Coordenadora de Educação Infantil do Colégio Anglo 21.