A arquitetura de Vila Nova Artigas na sala de aula

Colégio Anglo 21

28 Setembro 2016 | 15h17

*Por Gianpaolo Dorigo

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No início de 2016 propus o projeto de um curso interdisciplinar para turmas do 2ª ano do Ensino Médio, aproveitando a inauguração do Colégio Anglo 21. A nova escola iniciou suas atividades em um espaço privilegiado: o edifício que fora ocupado pelo Colégio Doze de Outubro no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, projetado por João Batista Vilanova Artigas em 1962.

O edifício – tombado como patrimônio artístico – apresenta as características habituais da obra do arquiteto, um dos maiores exponentes da arquitetura moderna paulista. O uso em larga escala de concreto aparente, a criação de amplos espaços internos de uso comum e a preocupação com a circulação através de largas rampas e iluminação proveniente do alto (claraboias) evidenciavam a personalidade do arquiteto. O edifício é muito semelhante ao da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, projeto de 1961), verdadeiro edifício manifesto das concepções de Vilanova Artigas.

A ideia do curso era utilizar o prédio como usina geradora de significados, ou seja, como ponto de partida a partir do qual seriam desenvolvidos três projetos de pesquisa ao longo do ano, em conformidade com a estrutura trimestral de avaliações adotada pela escola. Vila Nova Artigas projetou o edifício considerando suas concepções de ensino e mesmo de sociedade, e agora caberia aos alunos descobrir quais eram essas concepções e qual sua relação com a escola real que eles vivem, no Brasil real de 2016.

Os três projetos tiveram como eixos temáticos:

Eixo 1) o conceito de “utopia”. Qual seu significado e etimologia, como se apresenta na história do pensamento, com quais utopias Vilanova Artigas lidava, como isso resultou na forma do prédio que frequentamos. Foi prevista uma visita ao campus da Universidade de São Paulo para conhecer outras obras de Vilanova Artigas (edifícios da FAU e da História/Geografia).

Eixo 2) o edifício na cidade. Qual a relação do prédio com o seu entrono, como se organiza o espaço das ruas próximas, quais os caminhos usados pelas pessoas que frequentam a escola, quem são essas pessoas (alunos, professores e funcionários). Como pano de fundo, a constatação de que Vilanova Artigas projetava prédios “sem portas”, o que implica em uma reflexão sobre o público e o privado, a rua e o edifício.

Eixo 3) a identidade brasileira na década de 1960. A época em que foi projetado o edifício foi dramática no Brasil, incluindo a explosão das utopias (notadamente as utopias de esquerda), a releitura da identidade brasileira através da produção artística e o fechamento político representado pela ditadura (em si mesmo, uma separação radical entre público e privado).

Na prática, o início das atividades foi marcado por uma redefinição do projeto. Percebendo que a maior parte dos alunos do 2ª ano era proveniente do antigo colégio e sentiam-se ao mesmo tempo nostálgicos e apreensivos em relação à transformação da escola familiar de bairro (Colégio Doze de Outubro) em escola de alto desempenho (Colégio Anglo 21), decidi redefinir os eixos de pesquisa, diluindo o conteúdo do Eixo 2 nos demais e acrescentando um novo Eixo, sobre a Memória (conceito, produção e resgate de memória, imagens e depoimentos relacionados ao edifício).

O projeto ainda está em andamento, mas demonstrou bastante satisfatório no sentido de promover um interessante recorte no currículo tradicional.

* Gianpaolo Dorigo é professor de História do Colégio Anglo 21 e autor dos materiais didáticos do Sistema Anglo de Ensino.