Indicado para cuidar do Enem é crítico da imprensa e de pesquisas de opinião

Renata Cafardo

05 de janeiro de 2019 | 21h04

O novo responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Murilo Resende Ferreira, se apresenta como “aluno de Olavo de Carvalho desde 2009” e estudioso da filosofia e ciência política “em profundidade”. Não há qualquer menção a trabalhos que já tenha feito relacionados a avaliações educacionais.

Ferreira vende seus cursos de filosofia pela internet. Um deles, sobre filosofia política e disponível em seu blog atualmente, custa R$ 190. Há outros sobre “fundadores do marxismo” e “era de ouro do marxismo”. O blog, chamado “Reação a tudo que não presta”, também tem anúncios de aulas particulares do futuro integrante do Ministério da Educação.

Em textos na internet, ele critica a imprensa. “Atualmente, tudo na mídia é direcionado por pesquisas de opinião, mesmo quando os jornalistas e senhores da mídia juram desejar estimular a liberdade de opinião e pensamento”. Para ele, “esforços de manipulação da população geraram a pseudociência da pesquisa de opinião pública”.

Ferreira ainda não foi nomeado. Já o novo presidente do Inep, o engenheiro cearense Marcus Vinícius Rodrigues, assumiu sua função no órgão na semana passada. Ele foi diretor nos Correios, professor da FGV e é um especialista em gestão empresarial. Tem livros publicados sobre como melhorar a produtividade de empresas e o ambiente de trabalho. Também nunca trabalhou com educação.

Neste sábado, Bolsonaro disse no twitter que Ferreira é “doutor em Economia pela FGV” e que “seus estudos deixam claro a priorização do ensino ignorando a atual promoção da “lacração”, ou seja, enfoque na medição da formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula”. Em seguida, seu filho Eduardo Bolsonaro completou que os alunos não precisarão mais saber “sobre feminismo, linguagens outras que não a língua portuguesa ou história conforme a esquerda” já que o Enem estará “sob a égide de pessoas da estirpe de Murilo Resende”.

Ferreira foi indicado para assumir a Diretoria de Avaliação Básica (Daeb) do Instituto de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep). A Daeb é responsável pelas avaliações do ensino infantil, fundamental e médio feitas pelo MEC.

A maioria dos integrantes da equipe é servidor público, está há cerca de 10 anos no Inep e é especialista em avaliação. Internamente, eles avaliam que um chefe sem experiência na área terá dificuldades em lidar como grupo. A equipe é responsável, entre outras coisas, por escolher as questões que estarão no Enem, considerado hoje a prova mais importante do País, com 5 milhões de candidatos.

Bolsonaro já havia mostrado descontentamento com questões do Enem no ano passado porque uma delas perguntou sobre um dialeto LGBT. A prova, no entanto, é muito elogiada por educadores pelo conteúdo interdisciplinar e atual. As questões são feitas por especialistas de várias universidades federais do País e selecionadas pelo Inep.

Alguns dos textos de Ferreira foram publicados no blog de Percival Puggina, ex-deputado e escritor crítico da esquerda. Para ele, a imprensa nega que a educação esteja tomada pelos marxistas. “A universidade brasileira, se alguém falasse por ela, deveria emitir uma nota de repúdio a esses profissionais de imprensa. Como podem negar os serviços que ela, universidade, com tanto empenho, presta à difusão do marxismo no Brasil?”, escreveu neste sábado.