Educadores criticam indicação para ministério por critério ideológico

Renata Cafardo

22 Novembro 2018 | 15h59

A possibilidade de um ministro da Educação indicado pela bancada evangélica e sem experiência técnica na área preocupa a comunidade educacional. Depois que o presidente eleito Jair Bolsonaro desistiu da indicação do educador Mozart Neves, surgiram nomes como do procurador Guilherme Schelb e do deputado federal Izalci Lucas (PSDB-DF), ambos conhecidos defensores do Escola sem Partido.

Izalci é, inclusive, autor de um dos projetos sobre o tema. O nome de Schelb foi citado por Bolsonaro hoje e agradou à bancada evangélica.

“É errado usar doutrina ideológica como guia da política pública. Isso é mais perverso ainda na educação porque pode estragar gerações”, diz a a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, Claudia Costin. Ela ressalta que é preciso um quadro técnico para o ministério da Educação, que entenda por que o Brasil está na situação que está.

Claudia foi diretora de educação do Banco Mundial, ministra no governo Fernando Henrique Cardoso e secretária de Educação no Rio. “Não quero desqualificar ninguém, mas não se pode atribuir os problemas da educação a uma pretensa doutrinação. Se fosse isso era fácil de resolver. É muito mais complexo, passa pelo caráter pouco profissionalizante da formação do professor, pela condição de trabalho, pelos resultados que temos recebido de avaliações internacionais dos nossos alunos.”

Ela lamentou o recuo de Bolsonaro com relação a Mozart. “Não somos uma teocracia, um nome não pode ser vetado por uma bancada religiosa.”

Um educador de uma das maiores escolas particulares de São Paulo, que fez campanha para Bolsonaro, e pediu para não ter seu nome divulgado, disse ao Estado que a indicação de Schelb seria um “erro gravíssimo”. “Se ele nomear alguém ligado a esse movimento (Escola sem Partido), todos os educadores se unirão contra. Entregará ouro para o PT”, completou.

A Associação Brasileira das Escolas Particulares (Abepar) divulgou nota também criticando a desistência da indicação de Mozart. O texto diz que considera “um enorme retrocesso se o novo titular do MEC for um nome estranho à área educacional, que resulte de uma escolha política e ideológica, marcada pela defesa de teses regressivas, ultrapassadas e questionáveis, como é o caso do projeto Escola sem Partido”.

Para os representantes de algumas das mais conceituadas escolas do setor privado, isso traria “um período de grave turbulência no meio acadêmico e educacional, com prejuízos para os alunos e os professores  das redes públicas e particulares de ensino”. A nota também diz que Mozart “desfruta de ampla aceitação no meio acadêmico e educacional” e que fez “excepcionais trabalhos” em sua vida pública, além de ter “capacidade de diálogo”.

A presidente do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz, também falou da decepção com a desistência com relação a Mozart. “Ele tem todas as características de um bom ministro”, afirma.  “Tem grande capacidade de articulação, de liderança e fez o embrião do ensino integral no ensino médio em Pernambuco, um sucesso no País hoje Ele foi o primeiro a dizer que era o caminho a seguir.”

Para ela, o Escola sem Partido não pode ser o grande assunto da educação no País, trata-se de uma discussão lateral. “É uma agenda incompatível com as outras tarefas que temos que fazer porque o professor precisa ser um aliado na implementação de políticas e não um perseguido.”

O Semesp, maior entidade de universidades privadas do País, também divulgou carta em que “apela à sensibilidade do presidente eleito” para que “reavalie os seus critérios”. A nota declara apoio ao nome de Mozart para assumir o MEC e manifesta “preocupação de que uma escolha não fundamentada em aspectos técnicos”.

O nome de Schelb foi citado hoje pelo próprio Bolsonaro, que disse que teria uma conversa com o procurador. E fontes ligadas à equipe de transição informaram que a bancada evangélica também teria sugerido o deputado Izalci para o cargo.

Veja a íntegra da nota da Abepar:

A propósito dos nomes aventados para ocupar o cargo de Ministro da Educação no próximo governo, a Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar) propõe que o futuro titular da pasta seja um nome técnico, que conte com ampla aceitação por parte das principais instituições de ensino e dos atores mais representativos do setor.

O ex-reitor Mozart Neves Ramos, por exemplo, desfruta de ampla aceitação no meio acadêmico e educacional por conta dos excepcionais trabalhos que realizou ao longo de sua vida pública e da capacidade de diálogo por ele demonstrada nos diversos cargos e funções que ocupou.

Defendemos que o Brasil necessita de um nome respeitável à frente do MEC para unir o setor educacional e somar forças que nos levem a superar os graves problemas do país nesse âmbito.

A Abepar considera um enorme retrocesso se o novo titular do MEC for um nome estranho à área educacional, que resulte de uma escolha política e ideológica, marcada pela defesa de teses regressivas, ultrapassadas e questionáveis, como é o caso do projeto Escola sem Partido.

Acreditamos que, se o escolhido for um nome nessa linha, provavelmente teremos pela frente um período de grave turbulência no meio acadêmico e educacional, com prejuízos para os alunos e os professores das redes públicas e particulares de ensino.

Diante das circunstâncias, esperamos que o novo governo paute suas ações na área educacional levando em conta os reais interesses do país, agindo com altivez e inteligência, buscando a pacificação da sociedade e o aprimoramento contínuo da qualidade da educação nacional.

Abepar – Associação Brasileira de Escolas Particulares

22 de novembro de 2018