Entenda acontece uma avaliação de fluência em leitura

Entenda acontece uma avaliação de fluência em leitura

Acompanhei um teste em Sobral. Criança precisa ler várias palavras com sons parecidos em sequência, tudo é gravado e cronometrado

Renata Cafardo

04 de fevereiro de 2020 | 16h15

Acompanhei um teste de fluência em Sobral, cidade do interior do Ceará que se transformou em exemplo de educação no País. O menino Javé, de 7 anos, está no 1º ano do ensino fundamental e é chamado para fora da sala pela coordenadora Luziane Rodrigues. Ela explica que, por lá, eles conhecem o exame como “chamada de leitura”. O áudio pode ser ouvido no capítulo 2 do podcast Crianças que Leem, sobre Sobral.

Sozinho com a coordenadora no pátio da escola, o menino recebe o primeiro papel com várias palavras. Meio apreensivo, ele questiona Luziane se vai acertar tudo dessa vez. A coordenadora dá força e o chama de “super leitor”. O teste é semanal nas escolas de Sobral.

“São, santo, sapeca, onça, seu, sino, açaí, unha, nossa, saúde, sã, múmia, sonso, meus”, vai lendo o menino. Nessa prova, a intenção é checar a fluência do som da letra S. Mas também há palavras como “unha” e “múmia”, cujos sons ainda não estão totalmente memorizados pela criança e também são incluídos apesar do foco no S, explica.

Luziane e Javé, de 7 anos, em teste de fluência em Sobral FOTO: Tiago Queiroz/ESTADAO

Luziane intercala palavras carinhosas de incentivo com momentos de seriedade. Tudo está sendo gravado e cronometrado.

Em seguida ela apresenta outra folha para Javé com palavras que a coordenadora chama de “malucas”. “Samia, mesana, mozica, menessa, lisana, zimeni, solama, sussoi”, lê o menino, com um pouco mais de dificuldade. Apesar de não terem significado algum, explica Luziane, elas ajudam verificar como está leitura de um som específico.

A expectativa é que no 1º ano uma criança de Sobral leia pelo menos 60 palavras por minuto. No 2º ano, espera-se de 80 a 90. A quantidade vai aumentando conforme a série.

O teste também inclui textos. É o que Luziane apresenta em seguida. “Melissa é uma menina linda, Melissa se enfeita bastante, ela se enfeita todos os dias, Melissa usa saia de seda….”, lê Javé. “Agora, a tia vai fazer algumas perguntas. Posso fazer?”, questiona a coordenadora. Ela faz perguntas já estabelecidas em cartões que tem nas mãos: “O que Melissa faz todos os dias?”

O teste dura poucos minutos e Javé volta para a sala de aula. Suas respostas são colocadas numa planilha e passadas depois para a professora dele. Essa é uma das maneiras de medir o progresso no aprendizado da leitura, aluno por aluno, sala por sala. “Se eu percebo que a turma ou a maioria da turma está com dificuldade nesse fonema, isso indica que nós precisamos retomar aquele ponto”, diz Luziane.

O sistema de ensino de Sobral é todo calcado em avaliações e as crianças estão acostumadas a serem testadas desde pequenas, por isso a pressão não pareceu incomodar muito Javé. Os professores e coordenadores são intensamente treinados para ensinar a ler e a escrever e para, sempre, avaliar seus alunos.

Além disso, há material didático estruturado, interação com as famílias, muito incentivo para a leitura prazerosa e principalmente um trabalho que é continuado há décadas, independentemente do partido que assume a cidade. Sim, o teste de fluência existe em Sobral, mas o sucesso não se deve a ele.

 

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