Apesar do temor, Enem de Bolsonaro passou sem incomodar

Apesar do temor, Enem de Bolsonaro passou sem incomodar

Dúvida que surge é: faltou tempo ou intenção de mexer na prova mais importante do País?

Renata Cafardo

10 de novembro de 2019 | 19h34

Apesar de toda expectativa e temor, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) manteve-se no primeiro ano sob Jair Bolsonaro sem grandes sustos no conteúdo. As questões receberam os elogios e críticas de sempre: “bom conteúdo, fácil ou difícil, perguntas relacionadas ao cotidiano”. É o que se ouve há alguns anos dos professores de cursinhos. A dúvida que fica é: faltou intenção ou tempo/competência para mudanças?

Vontade existia, principalmente logo no começo do novo governo. O presidente chegou a dizer que leria a prova antes de ser aplicada. O primeiro presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo exame, criou em março uma comissão para barrar questões com “teor ofensivo a tradições e costumes nacionais”.

O grupo de “censura” não pegou bem e acabou sem força. E a gestão do Inep ficou confusa por meses. O órgão já trocou de presidente três vezes este ano, ficou um bom tempo sem responsável pela diretoria que cuida do Enem. E ainda teve de lidar com a falência e suspeitas de direcionamento de licitação em relação à gráfica que imprimia a prova há dez anos.

Candidata se prepara para fazer a prova do Enem FOTO: Helvio Romero/Estadão

Fontes internas dizem que os especialistas contratados para fazer as questões neste ano não mudaram. O Inep chama professores de universidades federais para esse trabalho. Os itens – como são chamadas as perguntas – fazem parte de um banco que vai sendo usado conforme necessário. Por causa desse processo, o Enem desde ano já estava pronto deste o fim do primeiro semestre.

Professores notaram também que os textos usados para ilustrar questões deste domingo e do passado são antigos, de 2012, 2011. Isso demonstra, mais uma vez, que não houve grande atualização no banco de itens.

Na prova de hoje, chamou atenção questões sobre o aplicativo Tinder e outra, que falava sobre o poder da batata para tirar o sal do feijão.

Mas perguntas engraçadinhas e próximas da vida do candidato são comuns há tempos. Houve anos em que se falou sobre o jogo Minecraft ou como recolher fezes de cachorros nas ruas. Perguntas com esse perfil foram a razão do surgimento da #aprendinoenem, em que candidatos postam na redes sociais comentários sobre trechos curiosos da prova.

Causou certo alvoroço o fato de o exame de História, feito no domingo passado, não abordar a ditadura militar. Temia-se a influência de um tal revisionismo histórico, em que se entende esse período não como uma ditadura. Mas isso não ocorreu e questões com foco em direitos  humanos foram mantidas. Para historiadores, o fato chama atenção, mas só será preocupante se o assunto ficar alguns anos sem aparecer na prova mais importante do País.

O Enem de Bolsonaro passou sem incomodar. O que não necessariamente é motivo para tranquilidade. Com mais tempo e talvez mais organização no Inep, a expectativa e o temor se transferem agora para o ano que vem.

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