Da guerra na Síria à Engenharia no Insper

Da guerra na Síria à Engenharia no Insper

Colégio Stockler

15 de março de 2021 | 15h25

Passagem de jovem refugiado pelo Colégio Stockler ensina importantes lições sobre tolerância, solidariedade e superação

Por Lara Silbiger

 

Aos 18 anos, Riad Altinawi leva uma vida semelhante à de muitos jovens de sua idade. Gosta de passar tempo com os amigos, desejaria ter tido a formatura dos sonhos, que não ocorreu por conta da pandemia, e almeja uma carreira promissora. Ele acaba de ingressar no curso de Engenharia do Insper, tendo passado direto no vestibular após se formar no Colégio Stockler no ano passado.

Até aqui, tudo parece normal e corriqueiro, não fosse o fato de que Riad traz na bagagem a experiência de ser um refugiado da guerra da Síria. Ao olhar para trás, resume sua trajetória em uma única palavra: superação. A família foi uma das primeiras a chegar ao Brasil, em dezembro de 2013, com uma breve passagem antes pelo Líbano. Na época, ele tinha apenas 11 anos, mas ainda se lembra da tensão que presenciou em diversos momentos.

 

Primeiros passos

Após bater de porta em porta em inúmeras embaixadas, o pai de Riad foi finalmente recebido pela embaixada do Brasil no Líbano, que autorizou a família a vir para o país. Chegando a São Paulo, pai, mãe, Riad e a irmã, Iara, tiveram rapidamente a condição de refúgio reconhecida, o que garantiu aos adultos o direito de trabalhar legalmente no Brasil. “Em sete meses, eu já me virava com o português. Mas estranhava a escola, que era o oposto do que conhecia no meu país. Lá o sistema mandava aprender e você aprendia – por medo. Era extremamente rígido. Quando vim para cá, tudo parou de repente. Acabou meu comprometimento com os estudos”, relembra o jovem.

 

Ponto de virada

O que ele não sabia é que o futuro lhe reservava outros caminhos. Em 2015, por intermédio de um professor do Stockler que era voluntário no Instituto Adus – entidade que atua junto a refugiados e outros estrangeiros vítimas de migrações forçadas, a fim de promover sua reintegração à sociedade -, a família de Riad recebeu o convite do Colégio para dar uma palestra na disciplina de Geografia. “Falamos sobre a guerra na Síria, o Islã e nossa vida como refugiados.”

A surpresa, porém, veio ao final do encontro. “Meus pais foram surpreendidos por uma das mantenedoras do Colégio, que nos convidou para estudar lá como bolsistas até o fim do Ensino Médio. Sem medir esforços para prover a melhor educação para nós, eles aceitaram a oferta e decidiram mudar-se para perto do Colégio “, conta o jovem.

 

Resiliência e novos aprendizados

Quando, enfim, parecia que os principais obstáculos haviam sido superados, novos desafios se desenharam para Riad, cuja história no Stockler começou no 8o ano. “Depois de dois anos na rede pública, tive que me readaptar a uma escola que exigia responsabilidade diante das tarefas e comprometimento com os estudos”.

Quanto aos amigos, ele se lembra das primeiras abordagens, regadas a curiosidade. “Aos poucos, fui aprendendo o jeito brasileiro de ser e como deveria ser o trato com os colegas.” Ao que tudo indica, Riad aprendeu a lição à risca. Dono de uma simpatia ímpar, ele parece estar sempre em busca de criar conexões com o interlocutor. “Em boa medida, atribuo esse aprendizado ao Colégio. Me diziam para ‘suavizar a conversa’ e cruzar a barreira das respostas que se resumiam ao ‘sim’ ou ‘não’. Também fui desenvolvendo a oratória enquanto participava de debates em sala de aula e simulações de conferências.”

Entre os momentos mais marcantes para Riad no Colégio, destaca-se a apresentação que fez para os colegas sobre o islamismo. “Como muçulmano, me dispus a explicar melhor a religião, como era de verdade, e as diferenças culturais.”

Para a escola, por sua vez, foi uma grande oportunidade de agregar valores como a tolerância, além de generosidade e empatia, na formação do grupo. “A presença de Riad e sua família no Stockler abriu novas possibilidades de exercitarmos e refletirmos diariamente sobre questões muito maiores na Educação. Estamos falando de valores humanos, na prática”, afirma Josely Magri, diretora pedagógica.

 

Projeto de vida

A chegada de Riad ao Ensino Médio foi acompanhada de amadurecimento emocional e mais estabilidade da família no Brasil. estudo à tarde.  Segundo ele, este foi também o momento de voltar para os trilhos. “Cheguei a desistir dos estudos. Mas o Stockler me ajudou a colocar a cabeça no lugar. O Colégio preparou-me para o vestibular e tornou-me elegível para uma vaga em uma universidade brasileira”, afirma o jovem, que faz questão de verbalizar inúmeras vezes sua gratidão.

O reconhecimento estende-se também aos mantenedores, diretores, professores e orientadoras educacionais. Entre elas, destaca-se uma que virou também conselheira. “Nos intervalos de aula, era a ela quem recorria para resolver situações difíceis na escola ou mesmo fora dela, na vida pessoal. E também para ouvir conselhos de uma pessoa brasileira – por exemplo, sobre vestibulares, faculdades e mercado de trabalho.”

Foi nesse período que Riad passou a dedicar mais tempo também para pensar no seu projeto de vida. “Desde os 6 anos, queria ser engenheiro, igual meu pai. Mas foi no Ensino Médio que comecei a pesquisar, a sério, a profissão.”

Riad concluiu o Ensino Médio em 2020, quando prestou os vestibulares de Engenharia de diversas instituições. Foi aprovado na PUC-SP, FEI, Mauá e Insper. Neste último, inscreveu-se no programa de bolsa, à qual lhe foi concedida após análise de extensa documentação e entrevistas com doadores, assistente social e professores do curso.

Mais que uma conquista nos estudos, para o jovem essa é a prova de que a necessidade é a força motriz para tudo na vida. “Corro atrás. Não desisto fácil”, afirma. Sobre a origem de sua proatividade e positividade, é enfático: “Nada se compara às coisas que vi e vivi na guerra. Olho sempre para frente e faço acontecer. Se não, estaríamos até hoje na Síria, nos lamentando.”

 

 

Colégio Stockler na Rede

 

       

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