APRENDIZADOS NA QUARENTENA | Mitos e verdades sobre o ensino a distância na Educação básica

APRENDIZADOS NA QUARENTENA | Mitos e verdades sobre o ensino a distância na Educação básica

Colégio Stockler

10 de junho de 2020 | 14h19

Por Lara Silbiger 

 

O ensino a distância funciona mesmo? A grade horária mudou? Diante de uma situação sem precedentes, é natural que haja questionamentos e a sensação de estarmos todos tateando um novo território. Mas a verdade é que existem dados, evidências científicas e trabalhos acadêmicos que vêm iluminando os desafios do ensino remoto, imposto pela pandemia de Covid-19. Para esclarecer as principais dúvidas das famílias, inauguramos hoje a série “Mitos e Verdades sobre o Ensino a Distância na Educação Básica”. Confira a seguir.

 

1. O ensino remoto simplesmente não funciona na Educação Básica.

MITO. A Educação a Distância (EaD), que é regulamentada pelo MEC e oferecida por instituições credenciadas, não é novidade. O que é novo é o ensino remoto, amplamente adotado por escolas de Educação Infantil e Ensinos Fundamental e Médio, a fim de cumprir o distanciamento social recomendado pelos órgãos de saúde. Nessa transposição do presencial para o não presencial, as plataformas online, as mídias digitais e as aulas virtuais estão entre as ferramentas mais utilizadas, segundo levantamento da organização Todos pela Educação.

“Sem dúvida, estamos diante de um desafio para as instituições da Educação Básica, mas também da oportunidade de oferecer aos estudantes novas experiências de aprendizagem, com recursos próprios do ambiente digital”, comenta Ana Lúcia Souto, produtora de conteúdos de Ciências na Khan Academy, maior plataforma mundial de suporte acadêmico à Educação Básica. Como exemplo, ela cita os jogos online, visitas virtuais a museus, simulações, uso de laboratórios remotos, trabalhos em grupo nos chats, entre outros que têm sua eficácia pedagógica comprovada e atendem bem os mais jovens. “Tudo isso contribui para os resultados do ensino remoto, que pode se valer dessa diversidade de ferramentas para despertar no aluno o interesse de aprender e ainda transformar o momento de aprendizagem em algo mais dinâmico.”

“Por outro lado, vale lembrar que o ensino a distância requer dos alunos certo grau de autonomia, o que é desafiador até mesmo para os mais velhos”, pondera Luciana Bastos, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo e pesquisadora de tecnologias da informação no ensino.

 

2. Para ter qualidade, o ensino remoto deve seguir a mesma grade de aulas e duração que o aluno cumpria antes da quarentena.

MITO. “Ensinar a distância não é transpor literalmente as aulas presenciais”, garante a designer educacional Maria Luiza Rodrigues, especialista em Inovação e Gestão em Educação à Distância pela USP. Segundo ela, é preciso atentar para as especificidades do ambiente virtual de aprendizagem, com materiais adequados e visual atraente. “Tudo isso leva em conta o fato de que o estudante não dispõe do professor ao lado dele e que precisa de mais estímulos para não desanimar.”

O respeito ao tempo do aluno é outro ponto de atenção. “Mais que seguir o antigo horário à risca, o que garante a qualidade no ensino remoto são as oportunidades e recursos oferecidos, seja por meio de atividade remotas, aulas síncronas – transmitidas ao vivo – ou videoaulas”, garante Ana Lúcia.

Cabe também ao professor avaliar quanto a turma está efetivamente aprendendo na modalidade não presencial. “E, sempre que necessário, aplicar intervenções de reforço e retomada do conteúdo, o que naturalmente inviabiliza agenda e cronograma previstos inicialmente para as aulas presenciais”, ressalta Beatriz Torrano, professora de Biologia no Ensino Médio do Stockler e responsável pelo suporte técnico do ambiente virtual de aprendizagem no colégio.
Preocupados em dosar o tempo máximo de aprendizado diário durante o ensino remoto, oito estados dos EUA já estabeleceram recomendações por faixa de ensino. Illinois é o que admite a maior duração, com 270 minutos por dia para alunos do Ensino Médio e de 90 a 120 minutos na Educação Infantil. Já no Oregon, a carga horária máxima é de 180 minutos diários no Ensino Médio e de 45 a 90 minutos na Educação Infantil, incluindo o tempo de atividades extras.

“Por mais variadas que sejam, essas referências de limite para o ensino remoto visam desencorajar as escolas de tentar recriar as longas e tradicionais rotinas escolares, que na prática seriam inviáveis em casa”, afirma Stephen Noonoo, em artigo publicado pela EdSurge, uma plataforma de notícias e pesquisa do ISTE (International Society for Technology in Education).

 

3. O adolescente não consegue se concentrar na aula online – seja ela síncrona ou gravada – pelo mesmo tempo que na presencial.

VERDADE. “Neurologicamente, um aluno a partir do 9º ano tem capacidade de se concentrar por até 40 minutos em aulas expositivas presenciais. Esse tempo, porém, cai para 15 minutos no online”, revela Ana Lúcia, que é pós-doutora em Física e hoje dedica-se a desenvolver artigos e outros materiais para aprendizado remoto na Khan Academy.

“Entediar-se rapidamente faz parte do perfil desta geração, que já tem na manga alternativas para onde migrar quando uma aula online começa a ficar longa demais – na percepção deles, perto do décimo minuto”, completa Beatriz. Ela ainda destaca que a chance de o estudante se distrair é potencializada pelo fato de os dispositivos para conexão com o material de estudos on-line serem os mesmos que dão acesso ao entretenimento e conexões interpessoais nas redes sociais.

“Com a tentação batendo à porta, não é por acaso que o ambiente virtual de aprendizagem exige mais mudanças de estímulos para reter a atenção do aluno”, diz Ana Lúcia.

De olho nesse tempo de concentração, Beatriz conta que as videoaulas gravadas, disponibilizadas aos alunos do Stockler, procuram não passar de 20 minutos. “A partir daí, um corte é bem-vindo, abrindo ao estudante a possibilidade de expandir o conteúdo por meio de infográficos, artigos de jornal, animações, podcasts, entre outros – e assim retomar o foco”, comenta a professora. O mesmo vale para as aulas online, que também demandam novos estímulo de tempos em tempos.

 

 

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