Relatos dos sobreviventes

Relatos dos sobreviventes

Colégio São Luís Jesuítas

29 Junho 2016 | 16h23

Testemunhas do holocausto e da bomba atômica vêm ao Colégio São Luís conversar com alunos do 9º ano

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Passaram-se mais de 70 anos. Tempo muito curto para que as feridas provocadas pela Segunda Guerra Mundial tenham cicatrizado na pele e na memória dos sobreviventes. Período longo o suficiente para que a nova geração olhe para o ocorrido apenas como mais um conteúdo do livro de História.

Não para os estudantes do Colégio São Luís.

Os alunos do 9º ano tiveram o privilégio de ter duas longas sessões de perguntas e respostas com pessoas que são testemunhas de horrores: Júlio Gartner, cuja trajetória de resistência ao nazismo foi contada no documentário Sobrevivi ao Holocausto (ele veio acompanhado de Márcio Pitliuk, diretor do filme) e Takashi Morita e Junko Watanabe, que viviam no Japão quando os Estados Unidos jogaram as bombas de Hiroshima e Nagasaki.

Relatos comoventes

Morita, que hoje tem 92 anos, lembrou do clarão e do barulho assustador que presenciou numa manhã ensolarada em Hiroshima. Não sabia o que havia acontecido. De repente, um avião passou. Ficou tudo escuro. Começou a cair uma chuva preta, parecia óleo caindo do céu. “As pessoas na rua ficaram com a cabeça queimada. De dentro de uma casa que desabou, uma uma criança gritava ‘mamãe, mamãe’. Consegui entrar e tirar o bebê de lá. Salvar uma vida me deixou contente. Olhei para a cidade: tudo destruído”, contou.

Dos cerca de 350 mil habitantes que viviam em Hiroshima, estima-se que 80 mil morreram instantaneamente após a queda da bomba atômica. Entre 90 mil e 140 mil pessoas ficaram feridas ou foram atingidas pela radiação. Morita passou um mês no hospital. “Sobrevivi pois não bebi ou comi nada por dois dias”, explicou ele, que teve medo da contaminação.

Junko era um bebê no dia em que a bomba caiu e seus pais só revelaram o fato quando ela já era adulta, casada e havia imigrado para o Brasil. “Por sorte, fiquei bem e meus filhos nasceram saudáveis”, contou. “Mas tive medo quando nasceram meus netos. Carregarei para sempre este medo”. Junko e Morita atuam na Associação Hibakusha Brasil pela Paz. O grupo inicialmente batalhava para que o governo japonês custeasse os gastos médicos dos sobreviventes à bomba e hoje tem uma atuação mais ampla de combate ao uso de energia nuclear.

De volta ao campo de concentração

holocausto

Como os alunos haviam assistido ao relato de Júlio Gartner no documentário Sobrevivi ao Holocausto, a conversa girou mais em torno de perguntas complementares. Os alunos tiveram curiosidade de saber se ele encontrou colegas de escola no campo de concentração (sim, encontrou), se a fé dele ficou abalada (“Ás vezes pensava, Deus, como você pode permitir que isso aconteça? ”, respondeu), se ele ainda sentia raiva dos alemães (“Não, seria injusto. Há um provérbio na Polônia que diz que o filho não pode pagar pelos pecados dos pais. Muito menos dos avós!”, disse), se acreditava que um ditador como Hitler poderia surgir nos dias de hoje (“Não, mas para isso é preciso que as pessoas sejam educadas e não permitam que esse tipo de gente chegue ao poder”).

“Participei do filme e estou hoje aqui para que nunca mais a história que vivi se repita”, disse Gartner. No documentário, ele visita os locais onde passou desde que teve de deixar sua casa na Polônia para se esconder em guetos até ser levado por nazistas. Trabalhando num túnel próximo a uma câmara de gás, ele sobreviveu um dia após o outro até a guerra acabar. “Eu sabia que aquilo iria acabar algum dia. Queria viver para ver o fim: felizmente o fim deles veio antes, não o meu”.

Entre tantos bons filmes sobre o nazismo que existem, Sobrevivi ao Holocausto é adequado aos jovens porque conta a história de uma pessoa que tinha 15 anos, a idade dos alunos quando a guerra começou. Também porque ele “volta ao inferno”, como diz, acompanhado de Marina, uma adolescente da idade de sua neta. “Busquei fazer esse contraponto para aproximar as gerações”, explica o diretor Márcio Pitliuk. “Normalmente ela reagia com raiva e indignação ao que via, enquanto ele manifestava sua dor, mas conseguia dominar o sentimento de ódio”.