Visita ao Centro Paralímpico Brasileiro ensina sobre ampliação dos sentidos, acessibilidade, cidadania e respeito

Visita ao Centro Paralímpico Brasileiro ensina sobre ampliação dos sentidos, acessibilidade, cidadania e respeito

Escola Santi

23 Outubro 2018 | 14h19

Ao se colocarem no lugar do outro, jovens enxergam a cidade de uma nova maneira e se propõem a discuti-la de forma consciente e inclusiva.

A saída parecia despretensiosa. A animação difícil de conter parecia fazer daqueles primeiros passos um grande jogo da hora do recreio. Os alunos de olhos vendados tropeçavam nas calçadas irregulares, andavam em diagonal e trombavam os colegas da frente, enquanto a dupla na cadeira de rodas parecia dominar um carro de corrida.

Foram poucos passos até que os adolescentes do 8° ano da Escola Santi (localizada no Paraíso, em São Paulo) percebessem a seriedade da saída pedagógica proposta pela equipe docente da escola. Tropeçando em ruas esburacadas, presos em rampas de acessibilidade danificadas e confusos com a falta de sinalização, os alunos entenderam que aquele estudo ia além da investigação sobre como funciona o próprio corpo.

Orientados pelos professores de Geografia, Ciências Naturais e Educação Física, eles deixavam a escola com o desafio de conhecer a cidade sob um novo olhar. Por meio da vivência de dois portadores de deficiência (um visual e outro motor), os alunos iriam cruzar a cidade até o Centro Paralímpico Brasileiro (CPB). O objetivo da atividade era fazê-los refletir sobre como o corpo humano se adapta a novas situações, além de colocá-los diretamente em contato com o direito coletivo de usufruir da cidade, independentemente do seu comprometimento físico.

Para chegar lá, foi preciso tomar um metrô até o Terminal Jabaquara e, a partir dali, um ônibus especial que faz o trajeto até o Centro Paralímpico. Logo na entrada do metrô, a aluna que estava de cadeira de rodas percebeu que não haveria como descer as longas escadarias que se colocavam à sua frente. Já os alunos vendados não conseguiam encontrar nem o caminho para as catracas, nem o espaço para inserir o bilhete unitário.

Ajudando uns aos outros, os estudantes enfim conseguiram chegar à plataforma do metrô. A dupla na cadeira de rodas estava ofegante. “Parece que temos que fazer duas vezes mais esforço!”, comenta Beatriz (14), que ajudava a levar a cadeira. Maria Fernanda (14), como cadeirante, disse, perplexa: “eu sou atleta, mas meus braços já estão doendo e eu estou esgotada”.

O grupo demorou mais do que o comum, mas chegou ao ônibus. Inaugurada em março de 2018, a linha 605A/10 (Centro Paralímpico – Metrô Jabaquara) é uma novidade na acessibilidade dos transportes públicos de São Paulo. Conta com rampa de acesso, espaço para até quatro cadeirantes, suspensão baixa e não tem catracas, para facilitar a passagem. Antes da nova linha, um ônibus comum deixava atletas e funcionários a 20 minutos do CPB.

Quando chegaram ao Centro Paralímpico, partiram para conhecer algumas das instalações. Assistiram a treinos de profissionais de tênis de mesa, natação e artes marciais; jogaram futebol com bola de guizos e experimentaram uma partida de Goalball; no caminho, até encontraram uma campeã, Evani Soares (29), medalhista brasileira de bocha, que conquistou o ouro nas Paralimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

É a primeira vez que a Escola leva os alunos ao Centro, inaugurado em 2016. Há 5 anos, o projeto pedagógico envolvia apenas a disciplina de Ciências Naturais e promovia uma vivência no bairro do Paraíso. O estudo envolve aprendizagens sobre percepção corporal e acessibilidade urbana.

Hoje, o projeto segue interdisciplinar e culmina com produtos que envolvem a comunidade. É o caso de uma vivência coletiva proposta à comunidade escolar durante a Mostra de Trabalhos de 2018 e da elaboração de um Projeto de Lei a ser apresentado no Parlamento Jovem Estadual de 2019. Além de estender a vivência a pais e familiares que puderam passar por uma experiência semelhante durante a Mostra, os alunos contaram com novos olhares para contribuírem com ideias para o projeto.

Para vários alunos da turma, a experiência foi transformadora. Depois de passarem pelas dificuldades diárias de uma pessoa com deficiência e testemunharem a habilidade daqueles corpos tão diferentes e atléticos, diziam: “eu nunca mais vou olhar para ninguém com cara de dó. Eles são vencedores”.

O objetivo foi cumprido. “É preciso vivenciar a dificuldade do outro para que os alunos percebam que (pessoas com deficiência) não têm limites”, conta a professora de Geografia, Andrea Sporl. “É uma maneira de desenvolver respeito pelo outro, pelo seu corpo e se tornarem cada vez mais cidadãos”, conforme explica Diogo Moreira, professor de Educação Física. Para Stefan Bovolon, os alunos encerraram “um ciclo de estudos sobre o corpo humano nas aulas de Ciências onde presenciam como o corpo humano é capaz de se adaptar em ambientes adversos”.

Ao vivenciarem a rotina de uma pessoa com necessidades especiais e testemunharem seu desempenho nos esportes, os alunos se colocaram lado a lado a estas pessoas. Nem superiores, nem inferiores, mas iguais – e, como iguais, reconheceram a necessidade de se pensar em políticas públicas que atendam a coletividade.

Perceberam que, quando os espaços são devidamente adaptados, eles se abrem para o desenvolvimento das potencialidades de cada um. É o caso de todos aqueles atletas olímpicos que, apesar das restrições, ganham medalha atrás de medalha com habilidades incomparáveis.

Assista a visita dos alunos da Escola Santi ao Centro Paralímpico Brasileiro clicando no vídeo abaixo: