O desenho e suas possibilidades: um novo olhar para o desenho na escola

O desenho e suas possibilidades: um novo olhar para o desenho na escola

Escola Santi

30 Maio 2016 | 17h19

Desenhar vai muito além do lápis e do papel. A arte quebra estereótipos, empodera e expressa sentimentos. Confira o relato e reflexão de nossa professora Carolina Bortoletto sobre a sequência de artes que trabalha com os alunos do 1º ano.

 

É verdade e de conhecimento de muitos que as crianças se expressam através de diversas linguagens, como a brincadeira, a música, o canto, o teatro, a dança e as artes plásticas. O desenho visto como linguagem expressiva da infância carrega em si especificidades ao longo de seu desenvolvimento.

Tendo em vista a capacidade da criança de arriscar-se e experimentar diferentes maneiras de expressão percorrendo e misturando muitas delas, me inquieta o modo como a experiência do desenho vem sendo vivenciada em grande parte das escolas. Chegada a hora de desenhar, imediatamente chega à mesa um riscante (giz de cera, lápis de cor, canetinha, entre outros) e um papel.  Esse quase que “ritual” se repete por anos em inúmeros momentos na rotina escolar das crianças. Será que esta é a única e mais rica maneira de vivenciar o desenho nessa fase tão expressiva, curiosa e espontânea da vida? Esta questão me levou a refletir sobre o tema e a pensar em quais outras possibilidades o desenho nos traz.

No século em que vivemos, onde somos bombardeados por tantas informações, e tantas são as linguagens expressivas que nos alcançam, limitar a experiência do desenho ao lápis e papel me parece não apenas destoar de nosso tempo, mas também não ser o caminho que melhor possibilita à criança expressar-se em todo o seu potencial, múltiplo de ideias, sentidos e ações.

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Pensando nisso, na necessidade de explorar as possibilidades do desenho em todo o seu potencial, é que nasceu a sequência de desenho para além do papel com a minha turma de crianças de 6 anos.

Meu objetivo nesta experiência era desconstruir esses conceitos de desenho “certo” e “errado” e possibilitar às crianças um afastamento destes julgamentos e a aproximação do prazer do desenho por ele mesmo, pelo movimento que causa no corpo, e pelas sensações que proporciona.

As crianças foram então convidadas a desenhar de olhos vendados, enquanto ouviam duas canções: uma canção indígena e o bolero de Ravel. Quando a música parasse, poderiam retirar as vendas e circular pelo espaço apreciando os desenhos no suporte (tira de papel kraft que forrava toda a extensão mesa).

Perseguindo a possibilidade do desenho através do corpo e dos sentidos, partimos para uma segunda proposta, em que ao som de músicas instrumentais as crianças iriam desenhar no ar usando fitas de cetim. Enquanto algumas delas dançavam e ao mesmo tempo produziam desenhos no ar, outras observavam e com o auxílio de pranchetas registravam o movimento das fitas em folhas de papel. Ao final, as crianças trocaram as funções e fizemos uma roda de conversa para apreciar os registros e compartilhar os sentimentos que surgiram.

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Durante esse período notei que as crianças da turma estavam fazendo alguns desenhos na areia do parque, utilizando pás, folhas e gravetos. Foi então que surgiu a terceira proposta: desenhar na areia.

No dia seguinte iniciamos o processo de desenhar utilizando areia colorida por eles, e foi mais um dia muito especial, de alegria e prazer em ver nascer um desenho diferente, efêmero, delicado, tridimensional e infinito em possibilidades.

Seguindo a investigação do grupo sobre novos materiais e possibilidades para desenhar, apresentei às crianças a artista Edith Derdyk. A artista se dedica a investigar o desenho em outras dimensões e utiliza diferentes materiais para isso, como por exemplo, fios. Esta foi a inspiração para a próxima proposta: desenhar utilizando fios de lã, barbante, entre outros. Ao final para documentar esta produção, as crianças fotografaram suas obras.

Nosso projeto continua, segue cheio de ideias e possibilidades. Ao refletir sobre o desenho percebemos como ele pode ser complexo, diverso e rico do ponto de vista dos materiais, da proposta e das possibilidades.

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Outro aspecto importante do projeto foi a participação das crianças na curadoria das exposições deste trabalho. A cada proposta, pensávamos juntos em como poderíamos compartilhá-la com as famílias. Dessa maneira as crianças puderam exercer seu protagonismo, participando da escolha da forma, dinâmica e lugar em que o trabalho seria apresentado.

Espero que este relato ajude professores e educadores a terem um novo olhar para o desenho na escola, dando lugar, tempo e voz para que ele se mostre em todo o seu potencial, e possibilite assim vivências significativas, prazerosas e poéticas para as crianças.

 

E O QUE VEM DEPOIS?

Os trabalhos com arte continuam no fundamental 1 e 2 sob os cuidados da professora Sandra Avellar. Ao longo dos próximos anos, o desenho é trabalhado de diversas outras formas: desenhos de observação, desenhos cegos, desenhos de imaginação, desenhos de memória, pensado juntamente com a pintura, abstratos, tridimensionais, com sombras, e muito mais. O desenho não é o foco – na arte contemporânea saber desenhar de forma clássica não é imprescindível – mas parte integrante de todo o processo. “O desenho é usado para quebrar estereótipos, símbolos e padrões. Meu objetivo é provocar que os alunos olhem para o objeto e não para ideias pré-concebidas dele, pensem as coisas sob outro viés e sejam críticos, treinando sua capacidade de observação para, depois, se apropriarem do que viram para seus próprios projetos”, conta Sandra.

Confira a sequência de atividades com desenho da professora Carolina no vídeo abaixo: