Um pouco de poesia no meio da pandemia

Colégio Santa Maria

04 de maio de 2020 | 07h30

Autoria: Tiago Fernandes

Os alunos do 8º ano do Santa Maria trabalham ao longo do ano com o gênero crônica, entre outros. Trata-se de um dos principais gêneros da série, muito trabalhado por diversas perspectivas.

Fazer uma crônica nem sempre é tão fácil pois, apesar de ser uma narrativa e os alunos já estarem muito acostumados a contar histórias, exige uma maturidade maior do autor e do leitor, porque normalmente se constrói em torno de um recorte de história e tem como principal elemento uma reflexão sobre o cotidiano.

Em linhas gerais, é necessário ter um leque de habilidades e elementos para compor uma boa crônica, pois um bom cronista “pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas”, como nos alerta o professor Antônio Cândido em seu artigo “A vida ao rés-do-chão”.

Durante o processo de reclusão em casa por conta da pandemia do Covid-19, os alunos aprenderam um modo diferente de promover as reflexões na crônica e até de narrá-la: eles tiveram aula sobre como produzir lirismo numa crônica, algo muito próximo do produzir poemas, mas agora em um texto em prosa.

Após as orientações e criação de maior intimidade com a nova forma de trabalhar com a linguagem, foram convidados a produzirem uma crônica com lirismo de tema livre. Obviamente, a grande maioria optou por falar do difícil momento vivido por todos nós: o isolamento decorrente da pandemia.

Os textos realmente são surpreendentes e segue um deles para refletirmos sobre esse momento:

A VIDA VISTA DA JANELA

João Frederico Alves Stolf Martins

Lucas Cimino Rodrigues Higassiaraguti

Pedro Henrique Yuji Oyama

 

Mais um dia da quarentena começava. E eu sentia como se a vida tivesse ficado esperando na paisagem solitária do lado de fora da janela. No relógio do tédio o tempo não passa. Não encontrava mais felicidade nas coisas que antes eu fazia em casa: não me sentia o herói do videogame, nem entrava mais no mundo das minhas séries. O que antes era especial tinha virado banal. Quando eu dormia, pelo menos nos meus sonhos não havia doenças.    

Sozinho no quarto, a solidão dentro de mim gritava que queria sair pela porta. Não podendo, eu dava minha solidão à janela. Mas não bastava: a infinita imaginação de tantas formas ilimitadas não cabe dentro de um quarto quadrado. A solidão humana só pode ser preenchida por algo que não cabe dentro de um apartamento, não cabe nem dentro de mim mesmo. 

Porque a solidão somente é preenchida pelo outro. Só os laços que unem famílias, amigos, namorados, animais de estimação é que conseguem dar sentido à existência humana. Nesse momento em que o ser humano não pode estar junto, é também quando deve ficar mais unido. Nós todos que éramos tão um, passamos a ter que nos reinventarmos em nossa janela solitária.

No condomínio, a janela assistia a um túnel do tempo, em que, no passado tão presente, solidariamente vivíamos uma alegria, uma alegria coletiva naquele espaço em que hoje a janela apenas vê a triste solidão. Voltaremos à escola? Às ruas? Ao convívio? Sim… Mas algo mudou em mim, em nós, em todos: o valor que damos a tudo que é coletivo, aos gestos de generosidade e altruísmo que nos tornam uma sociedade, e ao amor que nos torna sempre melhores. Assim, cada vez que olho pela janela, consigo ver mais longe. Embora a solidão nesse último mês nos faça tristes, ela nos faz maiores, pois nos ensina a viver. 

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