Trem da vida

Trem da vida

Colégio Santa Maria

29 Maio 2018 | 08h12

Autoria: Jacqueline Yovanopoulos e João Cavallaro Júnior

(…) “Há algum tempo atrás, li um livro que comparava a vida a uma viagem de trem.
Uma leitura extremamente interessante, quando bem interpretada.
Isso mesmo, a vida não passa de uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques,
alguns acidentes, surpresas agradáveis em alguns embarques e grandes tristezas em outros.

Trecho do texto Trem da vida de Silvana Duboc

 

Nossa história com a Educação de Jovens e Adultos no Santa Maria remonta os anos de 1975. Nessa época, nossa escola já se preocupava com os jovens e adultos que tiveram seu percurso escolar interrompido ou nunca puderam frequentar a escola regular. Começamos com a ideia de alfabetizar. Mas fomos crescendo, como deveria ser! A necessidade de avançar era crescente, pois os alunos vinham de todas as vizinhanças. Ganhamos fama! Ganhamos experiência …

Atualmente, contamos com mais de 600 alunos cursando desde as turmas iniciais de alfabetização até a preparação para a Universidade.

Não me parece muito educado dizer, mas… somos tão orgulhosos do que fazemos, pois nesses 43 anos de trabalho distribuímos a maior riqueza que se pode acumular: o conhecimento. E é nas palavras sábias de Albert Einstein que penso… “Lembre-se que as pessoas podem tirar tudo de você, menos o seu conhecimento.”

Hoje, vamos pedir para que esses jovens e adultos falem por si e sejam os protagonistas de suas próprias histórias, que nos contem um pedaço de suas vidas – vidas de mestres e alunos que se cruzam nos trilhos da sabedoria.

 

(…) “Curioso é constatar que alguns passageiros que nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes dos nossos; portanto, somos obrigados a fazer esse trajeto separados deles, o que não impede, é claro, que durante o trajeto, atravessemos com grande dificuldade nosso vagão e cheguemos até eles…

Muitas pessoas tomam esse trem apenas a passeio. Outros encontrarão nessa viagem somente tristezas. Ainda outros circularão pelo trem, prontos a ajudar a quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas…”(…)

Trecho do texto Trem da vida de Silvana Duboc

  

Sandra – 48 anos – doceira – 2ª série do Ensino Fundamental I

Sandra teve pouca instrução formal. Frequentou a escola em sua cidade natal, mas nunca aprendeu a ler. Mulher trabalhadeira, logo que chegou a São Paulo começou a trabalhar em um bar. Foi aprendendo as tarefas que lhes eram determinadas e sempre achou que era pouco. Queria mais. Aprendeu a fazer bolos e doces e logo se viu uma boleira de mãos-cheias. Cresceu, aprendeu mais, e foi trabalhar numa loja de bolos artesanais. O patrão estava começando seu negócio que, pouco a pouco também crescia. E Sandra precisava mais… alguma coisa a impedia de acompanhar o crescimento da lojinha. Sandra não sabia ler. O patrão, homem bom, tinha que ler e fazer os cálculos para ela… dez ovos… 1 quilograma de açúcar… 650 gramas de manteiga… Tão fácil. Nem tanto, para Sandra era difícil…

Quanta vergonha!

O homem logo viu que Sandra precisava de uma ajuda. Você vai estudar! Simples assim.

Agora sim! Que alegria maior ela poderia ter?! Seu patrão, aquele bom homem, a matriculou na “melhor escola do bairro”. E Sandra veio. Entrou no primeiro ano. Aprendeu as primeiras letras, as primeiras palavras, os números!!! E agora sim! Podia ler as receitas que seu patrão, com a paciência de sempre, trazia para ela!

Agora Sandra lê! Simples assim…

 

André – 31 anos – vendedor autônomo – 8ª série do Ensino Fundamental II

Casado, pai de dois filhos, André trabalha como vendedor autônomo. Inteligente, participativo e, acima de tudo, interessado e dedicado aos estudos. Disse que “na sua época” estudou pouco pois tinha que ajudar em casa e não viu muitos problemas se deixasse de estudar. ”Era tão jovem… tinha tempo pra tudo!”

Hoje, André tem 31 anos e vê na EJA a oportunidade de estudar que imaginava perdida. Mora longe da escola, mas se sente muito feliz de sair de casa e encontrar pessoas legais, com os mesmos objetivos e que se ajudam todos os dias.

E nas suas próprias palavras: “Sem falar nos professores que nos dão aulas fascinantes e são tão dedicados… Este colégio não só nos ensina as matérias, é uma escola regrada que também nos prepara para vida. Só tenho a agradecer à EJA do Colégio Santa Maria. Parabéns!”

 

Anderson – 22 anos – estudante – 1º ano do EM

Se tem um aluno bom nesta sala, posso dizer que é ele! Talvez algum colega professor não concorde comigo (ele é falador!!!), mas tem uma razão para isso: adora Biologia! Esse moço tem uma boa profissão, ele é técnico em gesso ortopédico!

Sua história é parecida com a de muitos rapazes que mudam de cidade com a família em busca de melhores condições. Quando menino se mudou para o interior de São Paulo, porém a distância entre sua casa e uma escola de ensino médio o impedia de estudar. O tempo passou, mas a vontade de progredir não. Estava no sangue da família.

Anderson foi buscando alternativas até que encontrou um jeitinho e fez o curso de técnico de gesso pela internet. “O progresso está em todo lugar, basta agarrar a oportunidade!”, dizia sua mãe. Mas alguma coisa o impedia de poder trabalhar: ele não havia concluído o ensino médio e, desta forma, não poderia exercer sua profissão.

Voltou para São Paulo e tinha que trabalhar de qualquer jeito. Foi balconista, ajudante, vendedor…. Mas ele adora o que aprendeu e quer trabalhar no hospital! Tentou outra vez o ensino a distância, só que não conseguia acompanhar as aulas e trabalhar ao mesmo tempo.

Agora Anderson não está trabalhando, no entanto tem sua família que o apoia e incentiva.

“Vai lá, meu filho! Disseram que a escola é muita boa e com o diploma do ensino médio você pode trabalhar no hospital!”.  Mãe boa é assim mesmo! Sempre dando pitaco nas coisas dos filhos.

Ele e a família apostam nesta nova fase de vida para Anderson. E nós do Santa Maria também.

Vai lá Anderson!!!

E eu? Ah… A minha história com a EJA começa em 2015. Bióloga de formação, transitei entre a docência e a pesquisa por quatro anos. Foram anos difíceis, pois ser pesquisador no Brasil é tarefa quase hercúlea. Já trabalhava numa escola e não estava satisfeita. Fui estudar novamente e prestei vestibular dezesseis anos depois do cursinho. Cursei Letras na Universidade de São Paulo e convivi com verdadeiros mestres. Ali, me descobri professora. Não… Professora!!! Sim! Com letra maiúscula. Professora de Ciências.

Hoje, já aposentada, percebi que adoro contar “causos” para meus alunos, todos “causos científicos”, e tiro deles aquelas boas risadas que alimentam e inflam meu ego. Que gostoso trabalhar com mulheres e homens, moças e rapazes com vontade de escutar minhas histórias. E é assim, nas entrelinhas, que lhes passo o conhecimento necessário para transformar suas vidas, as vidas de seus companheiros, filhos e seu entorno no bairro ou na comunidade onde moram… Descobri, depois de mais de trinta anos de docência, que existe muita vida a ser vivida e muitas vidas a serem transformadas.

(…)”Eu fico pensando se quando descer desse trem sentirei saudades … acredito que sim. Me separar de alguns amigos que fiz nele será, no mínimo dolorido. Deixar continuarem a viagem sozinhos, com certeza será muito triste, mas me agarro na esperança que, em algum momento, estarei na estação principal e terei a grande emoção de vê-los chegar com uma bagagem que não tinham quando embarcaram… e o que vai me deixar feliz, será pensar que eu colaborei para que ela tenha crescido e se tornado valiosa.”

Trecho do texto Trem da vida de Silvana Duboc

 

Esse gigantesco trem que hoje marca seus 70 anos de história e não para de contribuir para a construção de um mundo melhor e alcançável  …. passa por tantas estações e numa delas eu,  João Cavallaro Júnior, professor de matemática, tento embarcar em meados de 2015, porém a locomotiva estava a todo vapor que por alguns ajustes pessoais acabei adiando a minha chegada no vagão EJA/Santa Maria para o ano de 2017. Há 22 anos lecionando matemática para adolescentes, tive a oportunidade de trabalhar com a EJA na rede estadual, onde senti a necessidade de aprofundar meus conhecimentos em cálculos voltados para a EJA e assim voltei à Universidade/PUCSP onde defendi a dissertação de mestrado com foco na “Formação de Professores de Matemática na EJA”. Realmente estar, vivenciar e contribuir para a formação dos alunos da EJA/Santa Maria torna-se uma prática gratificante em todos os aspectos, pois nossos Antônio’s, Jacyra’s, Camerindo’s, Raimunda’s e outros, bebem da fonte do conhecimento de um modo bastante significativo para suas vidas pessoais e profissionais, deixando marcas em cada estação que embarcam semestralmente no Colégio Santa Maria.

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