Sobre os desafios de ensinar Botânica…

Sobre os desafios de ensinar Botânica…

Colégio Santa Maria

31 Outubro 2016 | 09h37

Autoria: Helika Chikuchi

Comecemos com um teste simples.

Olhe as imagens e responda sem pensar: qual é o primeiro ser vivo que você nota em cada uma delas?

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(Imagens: https://br.fotolia.com/)

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(Imagens: https://br.fotolia.com/)

É muito provável que você tenha reparado, de imediato, na ave da primeira imagem e nas capivaras da segunda, e que tenha ignorado a diversidade de plantas retratadas.

No artigo “Mas de que te serve saber botânica?”, Salatino e Buckeridge (2016) discutem um dos maiores desafios do professor de biologia: entender e combater as razões do desinteresse dos alunos pela botânica.

Parece haver uma “cegueira botânica”, caracterizada pela incapacidade de reconhecermos a importância das plantas no nosso cotidiano e no nosso planeta, e pela tendência de acharmos que as plantas são seres inferiores aos animais e menos merecedoras de nossa atenção.

De acordo com os autores, essa “cegueira” pode ser explicada por diferentes hipóteses, sendo uma delas a de que o nosso cérebro tem capacidade limitada para processar a quantidade de dados produzidos por nossos olhos. Com isso, o cérebro prioriza os aspectos relacionados com o movimento, os padrões salientes de cores, os elementos conhecidos e os seres ameaçadores. Como as plantas são estáticas, não são nossas predadoras e têm padrões de cores mais uniformes, elas tendem a ser ignoradas no processamento cerebral, portanto, a condição de “cegos” seria o nosso default.

Uma outra hipótese, que não exclui a anterior, é de que nas cidades urbanizadas temos pouco contato com a vegetação, e mesmo as plantas que consumimos chegam até nós em partes, muitas vezes já limpas, embaladas, ou processadas pela indústria. Assim, quando, por exemplo, comemos uma mandioca frita, dificilmente a associamos a uma raiz e ao restante da planta, especialmente se nunca vimos um pé de mandioca. Da mesma forma, diante de um pacote de farinha de trigo, dificilmente faremos a associação com as espigas e os grãos do trigo. Isso se estende para as nossas roupas, para a mobília da casa, para os pneus do carro, de modo que a vida urbana pode reforçar a nossa incapacidade de enxergar a presença e a importância das plantas.

No Brasil, possuidor da segunda maior área de floresta do mundo, é fundamental que a “cegueira verde” seja combatida nas escolas, e que os jovens se conscientizem da importância de preservar as florestas e de fazer uso racional de seus recursos, evitando colocar em risco a sobrevivência de muitas espécies de animais, inclusive a nossa.

As florestas são responsáveis pelo sequestro de grande parte do gás carbônico emitido pela atividade humana, colaborando para diminuir a intensificação do efeito estufa; produzem matéria orgânica e gás oxigênio necessários à nossa existência; liberam grande quantidade de vapor d’água para atmosfera, essencial para a formação de nuvens e ocorrência de chuvas em diferentes partes do país. Nas áreas urbanas, a presença de árvores ajuda a combater as ilhas de calor, torna o ambiente esteticamente mais agradável, e também colabora para a remoção de certos poluentes atmosféricos. Além disso, como o país tem forte dependência econômica do setor de agronegócios – uma área que depende do cultivo de plantas – é essencial que sejam formadas pessoas que se interessem em estuda-las e queiram desenvolver tecnologias para cultivá-las e aumentar a produtividade, bem como realizar pesquisas com novas espécies que possam ter valor alimentício, medicinal ou farmacológico, por exemplo.

Segundo estudiosos no ensino de Botânica, são várias as abordagens e os recursos que podem ser utilizados nas aulas para que os estudantes tenham mais interesse pelas plantas e, com isso, passem a enxerga-las nos seus detalhes, diversidade, beleza e importância. Há um consenso de que a realização de aulas práticas e o contato com as plantas favorece esse aprendizado.

Nesse sentido, os alunos do Colégio Santa Maria são muito privilegiados por poderem contar não apenas com o laboratório de biologia para a realização de aulas práticas, mas também com vários jardins nas suas dependências, os quais apresentam uma grande diversidade de árvores e de outras plantas cultivadas, que produzem flores o ano todo.

Além disso, o Santa Maria é das únicas escolas da cidade que dispõe de uma área remanescente de Mata Atlântica, cuja visitação é restrita aos alunos (acompanhados de professores). Nesse local é possível executar projetos pedagógicos com o objetivo de desenvolver a capacidade de observação da estrutura da mata, de identificação de seus extratos e das espécies nativas e invasoras presentes, além de outros aspectos da botânica e da ecologia.

A imagem a seguir, do interior da mata do Colégio, foi tirada de uma de suas trilhas.

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(Imagem: Helika Chikuchi)

Se você se interessou pelo artigo de Salatino e Buckeridge, ele pode ser acessado em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000200177&lng=en&nrm=iso