Sobre imagens, geografias e educação

Sobre imagens, geografias e educação

COLÉGIO SANTA MARIA

23 de dezembro de 2019 | 07h30

Autoria – Gilberto Soares e Gilda Parazzolli

“O mafuá é a própria operação do pensamento e dos corpos; não um lugar, mas um campo de conexões frescas e experiências que instabilizam as formas e permitem pensamento. O pensamento é o que acontece na passagem entre formas; quando um conhecimento se produz. O mafuá, na bagunça em que os atores sabem se movimentar, é a forma e o desforme, a ordem e o caos, a materialidade e a imaterialidade. O acoplamento necessário para o mundo andar e a complexidade hiperconectiva para o mundo diferir.”
É assim que Cezar Migliorin, professor da UFF, define o mafuá – uma experiência de educação que converge cinema, afeto e expressão. Num mundo em que as imagens se multiplicam, as aulas de Geografia perdem o status de explicação e descrição maior do mundo para serem atravessadas e contestadas pelas verdades vistas e reproduzidas em imagem.
“Se eu vi, existiu”.
Assim, a escola e as aulas de Geografia precisam transformar-se para que os estudantes possam lidar de maneira crítica com esta avalanche de imagens, permitindo que saibam selecionar, ver de maneira crítica e aprender a produzir e reproduzir imagens em um mundo em que o afeto passa a ser cada vez mais capturado pelos objetos e pelo consumo. Tenho, logo, existo. E se o ter não é possível (e nunca o será plenamente), os jovens e adultos buscam cada vez mais afirmarem-se num “parecer ser” em que a imagem é peça central.
No ano de 2019, as aulas de Geografia do 7º ano do Santa Maria foram atravessadas pela experiência do mafuá. A partir da exibição de vídeos escolares produzidos pelos alunos e alunas do ano anterior, vídeos feitos por indígenas e outras produções audiovisuais, os estudantes foram estimulados a transformar em imagens uma narrativa sobre um tema de interesse deles – parte do mundo que passa a ser incorporada como parte do currículo.
A transformação de uma ideia em texto, de texto em imagem, foi o desafio colocado a estes jovens e que se estendeu pelos quatro bimestres. E neste processo de experimentação da imagem, os alunos utilizaram as experiências do estudo do meio e a relação com outras linguagens, como o inglês.
A premissa de edição de que a sequência de três imagens pode transmitir um sentido (efeito Kuleshov) foi a base para que o estudo do meio se transformasse em vídeos-haicai e que a leitura do clássico The Prince and the Pauper em inglês se transformasse em um curta metragem, servindo tanto como produtos finais de sequências didáticas do terceiro bimestre dos componentes de Inglês e Geografia, como exercícios de gravação e edição para a produção dos filmes pensados no início do ano.

E como disse um aluno na avaliação de final do ano, “Com o mafuá, os alunos aprenderam e tiveram que conviver (pelo menos eu), com temas que não eram tão a favor, e relacionar com o seu e com o do outro grupo que se juntou ao seu, e isso fez com que aprimorasse a nossa percepção às coisas e ajudasse-nos a aprimorar o cérebro e a construir relações”.

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