Se muito vale o já feito, mais vale o que será  

Se muito vale o já feito, mais vale o que será  

COLÉGIO SANTA MARIA

21 de fevereiro de 2020 | 09h03

Já falamos nesse espaço sobre o trabalho que a Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas desenvolve com as Saídas de Estudos no Ensino Médio do Santa Maria. Hoje queremos falar de alguns desdobramentos muito interessantes que confirmam nosso propósito de entender a Educação como uma ação dialógica e dialética, que se retroalimenta no calor do “fazer”, que nos obriga – discentes e docentes – à prontidão, estarmos alertas ao que acontece ao redor, comprometidos com o presente.

 

O primeiro desses efeitos colaterais foi o alargamento do Estudo. O que antes tinha como ponto de partida as saídas com as turmas para reconhecer e discutir os “Lugares de Memória” e, como chegada a entrega dos trabalhos em grupo, foi ganhando ao longo dos últimos anos um fôlego maior. Em 2019 caprichamos em atividades de preparo e aquecimento com aulas de introdução ao tema da Ditadura Civil-Militar, oficina de roteiro de documentário, debate com diretor e atrizes da peça de teatro Villa, discussão em grupo de textos teóricos em torno do tema-eixo 40 anos da Lei de Anistia e o Processo de Redemocratização do Brasil.

 

Mas, também não nos esquecemos do pós. Entre os meses de agosto e novembro aproveitamos todas as oportunidades que encontramos para alargar a experiência do Estudo. Revisitamos o antigo DOI-Codi, agora com monitoria da professora Deborah Neves, que nos abriu o prédio para conhecermos as celas que um dia abrigarão um novo memorial do período. Conhecemos a exposição montada pelo Itaú Cultural sobre a trajetória do jornalista Vladimir Herzog com monitoria de seu filho, Ivo Herzog. Fizemos ainda dois cines-debates em torno de dois novos e distintos documentários (o espanhol O Silêncio dos Outros e o brasileiro Pastor Cláudio).

 

Nesse meio tempo repetimos a experiência do Projeto Duo, só que ampliando sua função. Convidamos o professor Marcos Iki para fazer uma oficina sobre a música dos anos 60-70, o que aprofundou o conhecimento sobre o período, mas também para falar do papel da trilha-sonora na confecção dos curtas-documentários que finalizam o Estudo da 3ª série.

 

Quando parecia que já tínhamos abocanhado tudo sobre 1979, a fortuna nos colocou mais um desafio. Soubemos que a biografia do operário Santo Dias seria relançada nos 40 anos de sua morte. Santo Dias da Silva, trabalhador rural, migrante do interior de São Paulo, católico militante, integrou o movimento de trabalhadores nos anos 70 (num contexto em que tudo era proibido) e encontrou o seu lugar na Pastoral Operária na Zona Sul da cidade. Ao lado de Ana Maria Dias, sua companheira de todas as lutas, integrou o Movimento Contra a Carestia, que a partir de 1976 procurou denunciar os limites da propaganda do sucesso do Milagre Econômico que embalou a Ditadura Civil-Militar a partir de 1967. Com os efeitos da crise internacional do petróleo, esses limites batiam à porta de muitas brasileiras e brasileiros: crescimento da inflação, endividamento das famílias, desemprego, pobreza. Acolhida pela Igreja Católica, a periferia do Brasil se organiza, fura a bolha da repressão, encontra-se, politiza-se e inventa instrumentos de mobilização. Quando essa experiência se avoluma, essas pessoas precisaram de um espaço maior para discutir caminhos. É aí que entram algumas instituições que não se furtaram ao papel corajoso para a época de fazer a opção pelos mais vulneráveis –  como o Colégio Santa Maria que sediou a Assembleia do Custo de Vida em 20 de junho de 1976.

 

Santo Dias foi assassinado pela Polícia Militar no cerco ao piquete em frente à Fábrica Sylvânia, na Rua Quararibeia, ao lado do Cemitério do Campo Grande, tudo pertinho do Santa Maria. A coragem de Ana Maria Dias impediu que seu corpo fosse “desaparecido”, coisa comum naquela época. D. Paulo Evaristo Arns impediu o silêncio e amplificou a denúncia, como já o fizera nas mortes de Herzog em 1975 e Manoel Fiel Filho em 1976. As Irmãs de Santa Cruz abraçaram a família Dias confirmando o Carisma de sua obra.

 

Quando conhecemos Maria José Azevedo Nair Benedicto (ex-aluna bolsista do Santa Maria, jornalista, co-autora de Santo Dias: quando o passado se transforma em História) e Luciana Dias (filha de Santo Dias e autora), nasceu a ideia de participar da homenagem que acontece todos os anos no dia 30 de outubro, data da morte de Santo Dias. Na calçada de um condomínio residencial (que tomou o lugar da fábrica) onde seu corpo tombou, hoje existe uma placa demarcando os acontecimentos. Esse Lugar de Memória é visitado todos os anos por um monte de gente: velhos companheiros operários, jovens estudantes, membros do clero católico progressista. Em 2019 estivemos lá comungando com essas pessoas e, depois, recebemos as autoras numa revisita à escola.

 

Para quem pense que esse assunto nada tem a ver com o que fazemos no Ensino Médio, saiba que falar de Santo Dias relaciona-se bem de perto com o Projeto de Estudo do Meio da 3ª série, que prioriza exatamente o debate sobre o papel do esquecimento e a importância da Memória como ferramenta da construção da Democracia brasileira.

 

Para celebrar esse compromisso democrático, no dia 1 de novembro de 2019, promovemos o encontro do máximo possível de pessoas, no espaço do Ensino Médio do Santa Maria. De um jeito o mais informal possível, nos sentamos com Ana Dias, Luciana Dias, Jô Azevedo, Padre Luigi Giuliani, Sister Diane Cundiff e Irmã Michael Nolan para um misto de conversa, relançamento com autógrafo das autoras, coleta de testemunhos daquele tempo e exibição dos curtas produzidos pelas alunas e alunos da 3ª série. Mas, sobretudo, uma manhã de celebração da vida, (co)memoração dessa História que aproximou a solidariedade cristã e a necessidade de luta de um povo por condições de vida dignas e por liberdades democráticas.

Que sorte a nossa. Ventura para o final do Projeto. Bom saber com quem andamos, quem ladeamos no presente, quem estará conosco num futuro mais justo, diverso, equânime.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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