Se for, vá em paz – o Brasil que somos?

Se for, vá em paz – o Brasil que somos?

COLÉGIO SANTA MARIA

26 de fevereiro de 2021 | 07h00

Autoria – Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

Se for, vá em paz – o Brasil que somos?

“O Cinema Novo ficou com a utopia brasileira.
Se ela é feia, irregular, suja, confusa, caótica,
é também bonita, desarmônica, iluminante,
revolucionária” – Glauber Rocha

Inevitável falar qualquer coisa sobre educação no Brasil – ou outro qualquer assunto aqui e no mundo – sem passar pelas limitações que a pandemia nos impôs.

Vou repetir lugares comuns só para introduzir a discussão que aqui se faz importante. Quando em março de 2020 fomos tomados pelas contingências, privilegiamos pensar as aulas, o trabalho miúdo mais imediato e, no rastro dessa urgência, fomos elaborando as avaliações.

Grande desafio deparamos. E, observem, processo avaliativo é tema onipresente em qualquer debate que se preze em educação. Só que, até então, pensávamos dentro de alguns parâmetros já conhecidos: formato, tempo de duração, feedback com os grupos de trabalho, mecanismos antifraude, caixas de diálogo entre os vários tipos e momentos de avaliação.

O formato remoto, ao contrário, era tudo o que não conhecíamos.

O Ensino Médio do Colégio Santa Maria conseguiu largar na vantagem ao já ter implantado uma plataforma digital que se mostrou eficiente e foi sendo aprimorada para nossas necessidades cotidianas. O teste do dia a dia foi fundamental para chegarmos em formatos de avaliação mais reais, factíveis e eficientes do ponto de vista pedagógico. Importante registrar que tudo isso nos custou, docentes e discentes, vários ajustes e uma sincera troca de informações. O retorno que fomos coletando com as turmas, suas impressões, as devolutivas de trabalhos, as demandas trazidas pelas coordenadoras/orientadoras, todas essas informações tiveram um peso enorme no desenho do processo final.

Quero dividir aqui o último trabalho que desenvolvemos com a 3ª série e que serviu de encerramento para o curso de História no Ensino Médio.

Não foi a primeira vez que usamos a análise fílmica numa avaliação em 2020. A diferença aqui foi o grau de exigência e o diálogo com documentos de naturezas muito diferentes. O eixo principal foi a análise do filme “Bacurau”, logo depois que estudamos as especificidades do processo de desmontagem da Ditadura Civil-Militar (1964-1985) no Brasil e começamos a definir as características do período que conhecemos como Nova República (1985-2020).

Como já tínhamos feito em outros momentos, usamos uma seleção de materiais que alicerçam a proposta de trabalho. Selecionamos dois documentários, literatura de cordel, dois artigos de jornais, uma pintura, uma foto e três textos mais robustos e analíticos que pensam esse Brasil que nos serviu de matéria-prima durante o segundo semestre. Todo esse material tinha que dialogar com o texto-cinema central, uma produção brasileira, dos diretores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho e que levantou vários debates entre setores diferentes da sociedade. Alguns viram no filme uma distopia-manifesto, outros o entenderam como provocação ao atual governo. Na verdade, ele foi todo rodado em 2018, antes das eleições. Sem dúvida, junto com “Parasita” do sul-coreano Bong Joon-ho, “Bacurau” deu o que falar em 2019. Ma, não foi realizado pensando aquele ano, mas o período de ebulição anterior e que alimentou as eleições de 2018.

Os grupos (de no máximo 4 integrantes) tiveram um prazo de três semanas para entrar em contato com todo o material e discutir algumas questões apontadas especificamente para dialogar com a Nova República. Não foi nossa intenção expandir a discussão para os pontos estéticos, nem avançar sobre o papel do cinema na construção de uma brasilidade. Até discutimos o papel da arte em outros momentos, mas, aqui não era o mote (uma pena, porque há toda uma discussão sobre a aproximação do filme com o Cinema Novo que conviveu com o início da última Ditadura brasileira).

No entrecruzamento desses documentos – entendendo sempre toda a produção como documento histórico, como testemunho de uma época, projeção do inconsciente e vontade coletivos – os grupos discutiram: cidadania e limites para os indivíduos, quais são as dimensões da corrupção, a possibilidade de aprender com o passado, o lugar da memória coletiva, se existe uma linha evolutiva na construção da História ou se há um movimento de vai e volta, avanços e retrocessos.

Reparem que o desafio era grande. Queríamos um trabalho para a 3ª série capaz de fechar o curso de História do Ensino Médio, elaborar uma conclusão, mas, também abrir uma grande questão existencial-histórica que provocasse suas ações no futuro.

Não seria exatamente essa nossa função nas chamadas Humanidades: dar subsídios científicos, teóricos, técnicos para pensar o presente e, ao mesmo tempo, não encerrar aí seu papel?

Instrumentalizar o debate, qualificar a discussão, elevar a capacidade do diálogo. Eis uma emergência do agora. Num tempo de tanta desinformação, provocar o debate qualificado pode ser um enorme serviço da Escola para melhorar a sociedade brasileira.

Eis a centralidade da Escola. Isolados aprendemos a nos aproximar pelo debate. Bom presságio para 2021.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.