Roda do coração: educação emocional na primeira infância

Roda do coração: educação emocional na primeira infância

Colégio Santa Maria

03 Outubro 2018 | 07h30

Autoria: Elizabeth Nishiyama Muniz e Karine Ramos

A educação emocional é fundamental para o desenvolvimento do ser humano. Dessa forma, é importante ensinar as crianças a identificar suas emoções e administrá-las desde a primeira infância.

Atualmente, a empatia é citada por muitas pessoas, mas nos colocarmos no lugar do outro não é o suficiente. A compaixão é a atitude empática colocada em ação, no sentido cooperativo. Mais do que calçar os sapatos do outro, é necessário fazer um trabalho colaborativo e sair do discurso estagnado. Requer escuta, encorajamento, exemplo. “É preciso educar mentes e corações”, já dizia Padre Moreau.

É na relação com o outro que se pode conviver com diferentes ideias, gostos e características. E isso requer um aprendizado socioemocional. Dessa forma, o adulto é um exemplo para as crianças e necessita primeiramente cuidar de suas habilidades emocionais. De nada adianta o discurso empático, se o próprio adulto não o materializa em seu cotidiano.

Pensando em trabalhar com essas questões, criamos a “Roda do Coração” no Jardim II do Santa Maria há alguns anos. Ela acontece no final do dia e envolve diferentes propostas, desde relatos de acontecimentos que deixaram o “coração” feliz, triste, com raiva etc e momentos de relaxamento, por meio de jogos diversos, como os “carinhos quentes”, nome escolhido para nossa turma.

Os carinhos consistem em olhar para o outro, fazer carinho na pele com pincel, algodão ou tecido ou, até mesmo, presentear um amigo com algo especial que saiba fazer, como a pulseira da amizade. Temos também um espaço com caixas de papelão e almofadas para as crianças terem privacidade quando assim desejarem. Essas situações são oportunidades de reflexão, percepção, expressão, tomada de decisões, regulação emocional, tolerância. O objetivo é criar possibilidades para nomear sentimentos e aprender a expressá-los, desenvolvendo a percepção de si e do outro, respeitosamente.

Um dos jogos realizados durante os momentos de relaxamento é o “jogo da xícara” (do livro Meditação para Crianças, de Susan Kaiser Greenland). Ele consiste em passar uma xícara (ou um copo) cheio de água para o colega ao lado, em uma roda. Compartilhamos esse jogo com a turma do Pré, que também se inspirou em realizar a roda do coração em sua rotina diária.

Muitas vezes, ouvimos as crianças dizerem: “Não quero mais ser seu amigo!”, ou notamos alguns mais quietos, outros correndo atrás de um colega que pegou seu brinquedo. Elas necessitam de tempo, caminhos e possibilidades para olhar, ouvir e perceber o outro e a si próprio… Significa considerar os seus sentimentos e também os das pessoas envolvidas.

As crianças precisam aprender a mergulhar nas emoções e lidar com elas. E cada uma reage de um jeito, de acordo com sua experiência de vida. Respeitar isso e abrir espaço para que possam se expressar faz parte de uma educação emocional empática.

É natural falar do que gosta e do que faz bem. Na “roda do coração”, as crianças utilizam o diálogo para expressar sentimentos, ideias e sensações de alegria e também quando algo não lhes agrada: “Estou triste porque meu pai viajou para trabalhar” (P., 5 anos). Expressar-se sobre o que nos deixa tristes também é necessário! Nesse sentido, é importante validar os sentimentos das crianças.

Antonio R. Damasio (1994) diz: “Os sentimentos têm a última palavra no que se refere à maneira como o cérebro e a cognição se ocupam de suas tarefas”. Portanto, falar sobre os sentimentos de alegria, tristeza, raiva, medo é fundamental para que essas percepções sejam interpretadas pelo corpo e pelo sistema cerebral, para um aprendizado entre perceber, sentir, agir, extravasar e expressar.

O primeiro passo é identificar e compreender suas emoções. Em seguida, aprender a lidar com elas e, a partir daí, buscar formas de canalizá-las. Nesse momento, o adulto serve como exemplo para as crianças, que observam como lidam com situações que não saíram conforme o planejado. Lidar com frustrações faz parte da vida e aprender com o erro traz uma série de aprendizagens. Permitir isso é primordial!

No Jardim II C as crianças vivenciam situações cotidianas nas quais interagem de forma cooperativa: aprendem a esperar sua vez, antecipam consequências, encontram soluções coletivas e lidam com desejos diferentes dos seus. Refletir sobre a ação que teve sobre o outro requer mudanças de atitude: afetar e ser afetado! Não basta pedir desculpas e repetir o erro constantemente. Ouvir um não quando necessário é tão importante quanto acolher ambos protagonistas num conflito. Crianças e adultos aprendem a conviver, sentir e ser. Valores que visam ao ser e não ao ter.  Por isso, acreditamos que os carinhos quentes, as atitudes de amizade e a roda do coração são caminhos certeiros.

As emoções ficam na memória, na pele, em nossa vida. Marcas que nos marcam!