Relatos de experiências: a produção das aulas práticas em Ciências Humanas do Ensino Médio

COLÉGIO SANTA MARIA

25 de novembro de 2021 | 06h00

Autoria: Mayra Lourenço

O novo Ensino Médio do Colégio Santa Maria, para além da mudança curricular estabelecida pelo Ministério da Educação e secretarias de ensino, foi pensado para conduzir alunos e alunas ao centro da produção de conhecimento. A escolha das eletivas ou dos itinerários formativos é só a primeira etapa de uma educação que pretende ver seus/suas estudantes como protagonistas na construção do saber.

Não se trata de uma perspectiva pedagógica recente, uma vez que pensar o ensino contextualizado com a realidade e levando em conta a história e necessidades dos/as alunos e alunos já é discutido na academia desde o fim do século passado. O que mudou, dessa vez, é conciliar o novo currículo com a prática pedagógica baseada em problemas e com uma postura mais atuante dos grandes sujeitos do saber, os alunos.

Quando pensamos em problemas e atividades práticas, sempre chega à mente a imagem de um laboratório ou uma situação que se precise construir alguma coisa ou resolver um problema com um correspondente material na realidade. No entanto, quando falamos nas Ciências Humanas, o que significa? Como construir um saber sobre as relações humanas? Como pensar problemáticas com profundidade, que desafie os alunos e não pequem por falta de complexidade? Como construir um saber sobre o passado, respeitando o método e a cientificidade das Humanidades, sem cair no debate meramente opinativo ou no show de curiosidades?  Aulas dinâmicas são aulas divertidas?

Essas perguntas apareceram antes e no decorrer dos planejamentos das unidades curriculares: de itinerário, eletiva e do currículo básico. As respostas foram sendo percebidas ao longo do processo e não se constituem como verdades permanentes, mas antes são fruto de uma prática pedagógica que procurou pensar em proporcionar a experiência de produção do saber científico, ao invés da sua reprodução. As aulas foram organizadas a partir de leituras de documentos, propostas de intervenção social, escolhas de temáticas diretamente ligadas à realidade e às necessidades dos alunos e alunas.

O rigor conceitual foi um dos princípios trabalhados em sala de aula, ou seja, é fundamental compreender que as humanidades são áreas da ciência e, portanto, requerem um método e uma precisão na utilização de seus conceitos e pressupostos. Experimentar a produção de saber por meio do método científico, expressão analítica e embasada foi uma escolha para que alunos e alunas se tornassem sujeitos na produção do saber.

A imposição sobre a diversão é uma questão mais social do que local. Na sociedade da satisfação imediata dos desejos, do dinheiro que compra felicidade, a educação pode parecer mais uma ferramenta que se deve possuir sem sacrifícios, dores ou incômodos. A história nos mostra que o conhecer pode ser gratificante, transformador, mas não será uma brincadeira de videogame ou um jogo de memória. Os princípios de reconhecimento da pesquisa requerem organização, sistematização e análise minuciosa.

As salas de aula – como uma célula do organismo social – refletem a experiência da sociedade da imagem, dos vídeos de segundos e dos textos de conjunto de algumas sílabas que representam frases inteiras. A escola se propõe, assim, a lidar com esses fenômenos com diálogo e, sobretudo, com problematização. As ciências humanas se colocam como espaço em que essas linguagens são apropriadas e, sobretudo, questionadas nos seus sentidos e porquês.  O tempo presente, assim, se transmuta em objeto do saber e os alunos e alunas são convidados a serem sujeitos e objetos do conhecimento.

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