Reforma ou desmonte?

Colégio Santa Maria

10 Março 2017 | 08h00

Autoria: Valéria Conte Delbem

Os últimos meses, que coincidiram com a ascensão do governo Temer, representaram uma avalanche, entre diversos aspectos, sobre conquistas sociais e reformas políticas.

Nesse breve artigo, pretendo abordar especificamente uma questão central para a educação: a chamada Reforma do Ensino Médio. Utilizo “chamada” como um recurso direto para a reflexão. Reformar traz consigo ares de mudança, um avanço e adaptação, após amplo debate e ponderações com educandos/as, educadores/as e especialistas. Porém, se nos determos profundamente ao projeto encaminhado e aprovado, sem problemas, pela base parlamentar que apoia Temer, nada disso se fez ou faz presente. Convido, portanto aos/as leitores/as uma questão primordial para o debate: quais grupos diretamente envolvidos na educação foram ouvidos? Alunos e alunas? Professoras e professores, gestores/as? E respondendo sem a menor dúvida: nenhum! Esse primeiro ponto me conduz diretamente ao segundo: se não fomos “convidados/as” a participar dessas discussões, nós os/as maiores envolvidos/as e experientes profissionais, quem pensou e construiu esse projeto? Em nome de quem?

Pagar jovens youtubers para ser o elo com a juventude em sua apresentação, que, aliás, não deixaram claros os pagamentos a eles realizados, já ilustra um problema, no mínimo de falta de transparência e ética. Como educadores/as somos cobrados/as constantemente para um diálogo mais honesto e democrático com estudantes. Isso ocorreu? A resposta, novamente: não.

Saindo da apresentação à sociedade e sua busca desesperada por legitimação por parte do governo, passemos para sua análise. O que está no centro do debate é uma ideia de educação que hierarquiza saberes, alunas/os e profissionais, um verdadeiro “hunger games”. Objetiva-se, contudo, a segregação ainda mais desses/as alunos/as, redes de ensino, recursos e acesso à universidade de qualidade. Vende-se a ideia de que agora educandos/as poderão escolher seu percurso a partir do segundo ano.

Escolhas são sempre difíceis e devem ser feitas a partir de uma profunda e madura reflexão. Educar para a autonomia e responsabilidade é um processo longo, em que se exige da escola um projeto político pedagógico democrático e inclusivo. A escola não pode se furtar desse debate e propor um Ensino Médio mais dinâmico e atual. Porém a questão que novamente nos assombra foi seu caráter autoritário e empobrecedor. Após anos de discussão com profissionais de grande envergadura, tudo se jogou fora: a água e o bebê. De repente, após apenas 15 dias no cargo, o presidente Temer, Ministro e secretários tinham pronta a “solução” para as mazelas e problemas da educação: deixem que jovens, sem preparação alguma, escolham seus caminhos, forme-se mão de obra barata e acrítica, excluam-se disciplinas, demitam-se milhares de profissionais: os jogos vorazes iniciaram-se! Tudo embrulhado em pacote chamativo e com gastos em propaganda inimagináveis.

A educação, como experiência de sociedade e formação para a cidadania, merece muito mais que uma medida provisória lançada por políticos que nada sabem e nunca por ela se interessaram. Ela deve ser fruto do diálogo, das boas experiências vividas, do entendimento e do compromisso com a educação.

De nossa parte, o Colégio Santa Maria, se posicionou: equipe de professores/as e educadores/as da escola lançaram um manifesto e um convite para o debate democrático com nossa comunidade e com a sociedade nesse momento tão difícil.

Além disso, pedimos a participação de todos e todas para assinarem o manifesto na plataforma avaaz. Juntas/os somos mais fortes!

Abaixo segue o link:

Colegas educadores/as.
No momento em que chega o projeto de reforma do ensino médio ao Senado, convidamos a que todos assinem (NÃO BASTA CURTIR) a petição que nós, grupo do Colégio Santa Maria, elaboramos contra esse projeto e a favor de uma discussão democrática.