Que transformação virá da pandemia?

Colégio Santa Maria

12 de junho de 2020 | 07h30

Autoria – Adriana de Oliveira Pires  

 

São tempos de repensar convicções antigas. Ouço insistentemente que em tempo de Covid19 o imperativo é reinventar, quase como se fosse uma receita para a fuga bem-sucedida desse caos. Propagandas repetem como um mantra que é obrigatório “se reinventar e empreender” se desejar estar vivo e economicamente saudável quando a imunidade de rebanho for alcançada ou, por sorte, uma vacina for comercializada e a economia brasileira puder retomar o ritmo. Por outro lado, felizmente, há pessoas instigando outras formas de pensar sobre essa onda de destruição, como pensadores, educadores, cientistas e religiosos.

Pandemias são esperadas há tempos pela comunidade científica. Os mecanismos biológicos que favorecem a origem de novos vírus, o contexto social que pode favorecer sua origem, as rotas possíveis de dispersão dada à globalização e ao fácil deslocamento humano são conhecidos ou projetáveis.

O Sars-CoV-2 não apresenta o poder de destruição do corpo humano como o cogitado para uma pandemia de vírus Influenza. Então, podemos perguntar porquê esse conhecimento não foi suficiente para evitar tantas mortes em todo o mundo. Situação que deve se intensificar, infelizmente, até que “alguém se reinvente” e crie uma solução, uma vacina ou medicamento que possa tratar os doentes.

Impossível ser educadora, e não levantar junto aos alunos se esse deve ser o resumo desse tempo. Os efeitos da Covid-19 são muitos além da patologia. É necessário colocar luz sobre as escolhas feitas na criação de um sistema de saúde nacional. É urgente discutir saúde coletiva, falar em saúde pública e desigualdade social. Imprescindível deslocar esse adolescente de seu abrigo e fazê-lo enxergar além de seu círculo de vivências e essa parece ser a tarefa mais difícil.

Os números que crescem de maneira vertiginosa acabam sendo comuns, não espantam, e a contagem diária é esperada com o humor inalterado – 400 mil, 34 mil…. são pessoas que faleceram, são muito mais pessoas em luto e sofrimento.

Mas quem são eles? O primeiro óbito em São Paulo, um homem com 62 anos apresentava comorbidades e estava internado em um hospital particular próximo à avenida Paulista, região economicamente privilegiada. A primeira morte no Rio de Janeiro, uma mulher de 63 anos, morreu em um hospital municipal de Miguel Pereira, munícipio sul fluminense.

Vírus não escolhem classe social, mas se, no momento, o único “remédio” é o distanciamento social, claramente mais pessoas adoecerão e morrerão em virtude da sua urgência de renda, das condições sanitárias de seus bairros e da possibilidade de acomodação em seus lares, caso haja um. Essas são questões de ordem social e não há um “reinventar-se” ou um “empreender” possível para, como em uma corrida com barreiras, pular barreiras desse tamanho.

O Estado tem obrigações que deve cumprir gerindo a estrutura pública e tentando remediar as desigualdades dos diferentes grupos sociais ou estará claramente praticando seleção social, escolhendo quais serão os mortos. Quais hospitais possuem leitos suficientes de UTI, EPIs, ventiladores e profissionais de saúde? Que critérios são rotineiramente utilizados para escolher esse número de leitos? Como evitar que em desespero muitos precisem escolher entre comer e contrair Covid-19? Que educação foi oferecida à população que permitisse que cuidados básicos com a saúde do corpo fossem inacessíveis?

E nós, coletivo, também temos nossas responsabilidades. O que fazemos para fechar os olhos quando estamos seguros em nossas casas amplas, com água limpa, conhecimento para entender as alterações necessárias da nossa rotina e suficiente segurança financeira para poder aguardar a imunidade de rebanho ou a solução farmacêutica com vacinas e/ou remédios. Nos reinventamos?

A reinvenção necessária surge sobre o alicerce construído pela educação, pela ciência e pela valorização da vida no seu sentido mais amplo. Como educadora, no Colégio Santa Maria, penso que é preciso remover o adolescente de seu conforto e fazê-lo pensar em temas duros, incentivá-los a não fechar os olhos e a enxergar a humanidade. É urgente alimentar essa geração com ciência, cultura, valores e humanidade. Eles podem ser transformadores dos tempos seguintes.  Que a pandemia, além de toda a sua tragédia, possa reinventar a nossa humanidade.

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