Quando o sonho se torna matéria

Colégio Santa Maria

21 Outubro 2016 | 07h30

Autoria: Natália Ruela

“José aprendeu a ler aos sete anos e, como muitas crianças, ainda antes dessa idade, seus olhos brilhavam ao se depararem com narrativas e poemas  que o enchiam de fantasias e de sonhos. Por isso, aos sete, o menino achava que os livros eram uma boa companhia e mergulhava no universo literário para construir seus sonhos de menino que, mesmo sem que lhe solicitassem, ele  usava como instrumento/alimento para suas histórias contadas por meios de narrativas escritas, desenhos ou teatrinhos autorais.

Com o passar dos anos, no entanto, o ambiente escolar, que outrora lhe deu asas por meio da alfabetização, tornou o seu prazer em ler o mundo (e as historinhas narradas) uma pesada tarefa: os livros viraram provas e as histórias não serviram mais para alimentar os sonhos e a criatividade, pois tornaram-se um conteúdo a ser apreendido e passaram a ser um degrau para a obtenção de conceitos/notas e aprovações.”

É exatamente assim que as escolas vêm matando, ano após ano, o gosto pela leitura e pela literatura. Ler, que outrora era um entretenimento e um deleite, passou a ser uma disciplina escolar (e só isso). A literatura, que outrora era arte e alimento para “a alma” tornou-se uma espécie de matéria a ser alcançada para o ingresso na objetivada (porque os sonhos vão deixando de existir também na escolha profissional) universidade.

É cômodo e fácil dizer que o distanciamento dos nossos jovens do século XXI do mundo das letras se dá por conta apenas das mudanças advindas com as novas tecnologias, mas tal discurso apenas isenta de responsabilidade os seres humanos que “trabalham” com a poesia, tornando-a coisa e não alimentando a subjetividade advinda das primeiras leituras de nossas crianças.

Harold Bloon defende que a literatura serve, antes de tudo, para deleite e, ao que nos parece, as salas de aula da contemporaneidade têm visto a literatura apenas como uma lista de livros e uma disciplina a ser teorizada para obtenção de títulos acadêmicos, o que – convenhamos – não traz nenhum deleite artístico.

Não pensamos que a literatura seja somente para o deleite, mas ela é, antes de tudo – como outras artes – arte para o deleite. E o nosso problema é que estamos tornando, com aulas maçantes e provas cada vez mais objetivas, essa nossa arte das palavras uma espécie de coisa. E, com isso, o que vemos é a “coisificação” cada dia maior de nossos alunos, que perdem, durante o trajeto escolar, a capacidade de encanto com a poesia e com a ficção e a capacidade de “poesificar” o mundo. Matamos as crianças que sonhavam e que construíam ficção quando “jogamos” clássicos literários que são verdadeiras obras de arte em leitores que não têm maturidade para lê-los e que poderiam ter acesso a um universo ficcional que está fora das salas de aula e os manteriam sujeitos abertos e criativos.

Matamos Josés e nos isentamos da culpa, falando apenas da importância de Drummond, coisificando sua arte e sua pessoa, e aí, para justificar o fracasso e nos ausentamos da culpa, usamos as falácias de que as crianças e os adolescentes não conseguem alcançar a literatura, mas o que acontece é que não estamos, nas escolas, deixando a literatura enquanto arte do lado de fora, distante de qualquer possibilidade de afeto. Mas, “e agora, José”, o que podemos fazer para deixar a poesia e os sonhos renascerem depois de os termos matado?