Produção textual e “gamificação”: instrumentos avaliativos de Geografia?!

Produção textual e “gamificação”: instrumentos avaliativos de Geografia?!

COLÉGIO SANTA MARIA

15 de julho de 2019 | 07h30

Autoria: Professor Robson Veríssimo

 

Encarar situações de avaliação com calma e tranquilidade é uma tarefa praticamente impossível para nós, adultos, e mais ainda para adolescentes e crianças. A consciência de que a qualidade de suas respostas, produções e ações serão julgadas por alguém é um fator que aumenta a tensão em níveis que, muitas vezes, podem prejudicar o desempenho daquele que realizaria as tarefas sem nenhuma dificuldade em outras circunstâncias.

 

Dessa forma, em um contexto educacional em que as ações avaliativas devem estar cada vez mais integradas ao processo de ensino e aprendizado, é interessante que os diferentes componentes curriculares de todos os níveis da educação básica desenvolvam um olhar sensível a essa questão. Nesse sentido, parte do processo avaliativo ao qual os alunos do 6º ano do Colégio Santa Maria foram submetidos no segundo bimestre em Geografia misturou elementos de pesquisa, “gamificação” e produção de texto em uma atividade com etapas individuais e colaborativas.

 

O termo gamificação compreende a aplicação de elementos de jogos em atividades de não jogos.  Embora a gamificação seja aplicada há muito tempo na educação, especialmente nas etapas iniciais da escolaridade, hoje em dia a compreensão do processo, sua relevância para a educação e, principalmente, a responsabilidade em sua aplicação são objetos de pesquisa que permitem sua utilização em contextos muito mais complexos e enriquecedores. E qual foi o resultado imediato dessa experiência? Além do aumento da motivação e do engajamento de cada indivíduo nas equipes envolvidas nas atividades, a tensão típica de um processo avaliativo foi praticamente eliminada.

 

As atividade que compuseram essa ação avaliativa foram pensadas a partir da iniciativa da equipe de Humanidades da série, que optou desenvolver as noções de diversidade e migração. Para isso, na primeira etapa, cada uma das sete turmas ficou responsável pelo levantamento de dados e informações históricas e geográficas sobre um país. No segundo momento, esses dados foram utilizados organicamente como pontos de partida e exemplos para o desenvolvimento dos conceitos fundamentais dos componentes curriculares ao longo do segundo bimestre.

 

As atividades de avaliação citadas ocorreram, portanto, ao longo de todo o bimestre, mas culminaram na produção de um conto de aventura cuja construção levou em consideração:

 

  1. a) A análise dos dados pesquisados: os elementos da paisagem natural e os indicadores socioeconômicos de cada país foram a base para o desenvolvimento das características do espaço narrativo e das características sociais das personagens principais e secundárias;

 

  1. b) A aplicação dos conceitos e conhecimentos: ações como o cálculo de distância por meio das escalas dos mapas e localização por coordenadas geográficas foram obrigatórias no desenvolvimento das rotas de migração realizadas pelos personagens ao longo da aventura;

 

  1. c) A criatividade para resolução de problemas: a atividade contou com elementos de roleplaying ao exigir que cada aluno criasse uma ficha para seu personagem, que constituiria um dos protagonistas da história junto aos demais membros da equipe. A colaboração entre a equipe foi fundamental para a resolução de problemas presentes na narrativa por meio de elementos de aleatoriedade inseridos com a rolagem de dados de seis faces em momentos estratégicos.

 

Finalmente, uma vez que  a atividade foi elaborada para desenvolver a colaboração por meio das ações de cada membro da equipe, além da avaliação individual do desempenho e da qualidade da produção individual realizadas pelo docente, foi proposto um exercício de autoavaliação. Neste, pontos deveriam ser distribuídos entre os membros de cada equipe, de acordo com a avaliação dos próprios alunos, com justificativas de cada um. Obviamente, novos desafios são postos quando propostas diferentes são aplicadas, especialmente na dimensão comportamental e socioemocional: nessa etapa, cada aluno deixou clara sua impressão sobre mobilização, competitividade, engajamento, liderança e mesmo frustração frente à equipe.

 

A iniciativa não é revolucionária, mas deixa claro que a ludicidade não precisa extinguir-se na Educação Infantil, o trabalho com produção textual não precisa estar restrito às aulas de Língua Portuguesa e, definitivamente, a avaliação não precisa estar restrita a uma prova com questões de retomada no fim do bimestre.

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