Prazer e descobertas

COLÉGIO SANTA MARIA

31 de março de 2020 | 07h30

POST 31/03

Autoria: Geraldo Gomes Brandão Júnior

Edgar Allan Poe, mestre do suspense norte-americano; Conceição Evaristo, nossa poetisa e cronista contemporânea; Carlos Drummond de Andrade, com suas crônicas geniais; o abolicionista Castro Alves e tantos outros autores, juntamente com os alunos da Educação para Jovens e Adultos do Santa Maria, dão vida às ideias do escritor francês Roland Barthes: durante leituras e declamações de contos e poesias, quando as letras escritas entre duas margens da folha tornam-se corpo (e viva Merleau-Ponty!), como em “Gato Preto”, de Poe, ou em “Maria”, de Evaristo, nitidamente os textos despertaram um prazer muitas vezes não sentido antes.

 

O público que descobre o prazer da leitura em nossas salas de aulas é heterogêneo: são jovens, cujos caminhos tortuosos fizeram-nos sair da escola, jovens refugiados a buscar oportunidades não mais existentes em seus países de origem ou jovens-nem-tão-jovens que acreditam na educação como uma ponte para empregos melhores. Muitos destes nem-tão-jovens sentam-se em suas cadeiras, depois de muitos anos, e se sentem valorizados em um ambiente escolar tão acolhedor. 

 

Observa-se nos olhos, janelas abertas da alma destes jovens e adultos, o espanto perante conteúdos e informações. Há neles o brilho de luzes em cada leitura, descoberta e discussões, tornando a sala um espaço de prazer real, sem idealizações ingênuas e românticas.  No meio destes pequenos prazeres, existem também desafios, como o de perceberem, em nosso projeto interdisciplinar, a proximidade entre disciplinas díspares e que dialogam assuntos semelhantes. Novamente o tempo é de descobertas! 

 

Mesmo em um período no qual somos confinados em um isolamento social, graças ao Covid-19, para muitos haverá, além dos familiares em nossa quarentena, a presença, agora sentida e concreta, do misterioso Allan Poe, de um homem com sua mulher e seu gato preto; de Conceição Evaristo e sua luta com as palavras; de Maria, uma mulher que queria chegar até sua casa (mas esta história não teria acontecido com a escritora, pergunta alguém após a leitura!); de Ana Davenga e sua primeira festa de aniversário ou de Drummond e os moradores na rua que descobrem o prazer em um pedaço de carne encontrado no lixo.

 

Estes novos amigos ganharam corpo e se tornaram presença na vida destes novos-leitores, o que gera a expectativa de um rápido reencontro com a escola, com outros autores e personagens, momento no qual o prazer dos textos e das descobertas reiniciarão.

 

Um dos amigos recém-conhecido, um gato preto, conduz-nos, leitores despertos pelo prazer do texto, por corredores estreitos em uma casa mal assombrada. Depois de reaprender a diferença entre mau e mal ou conhecer os diferentes porquês, os olhares destes jovens acompanham os caminhos do narrador e dos personagens pela casa, comovem-se com seu sofrimento na infância e sua vida solitária, horrorizam-se com o miado estridente e o desfecho da história. O prazer da leitura deixa-nos uma sensação de vazio, que exige ser preenchida, daí a continuação do texto por intermédio de uma discussão a respeito da tragédia do feminicídio em nossa sociedade. 

 

Já a pobre Maria, de Evaristo Conceição, provoca angústia, receios, raiva e piedade: nossos jovens percorrem, pela leitura, novos espaços, como o interior de uma casa ou de um ônibus, sentindo dores e “com-vivendo” com os personagens. Sentimos, pela leitura, até a presença da dor do corte da mão de Maria. Não há indiferença perante a leitura da narrativa. Nos olhos dos que procuram uma nova ponte para seu futuro, aprende-se que o texto é vivo, que se deve lutar com as palavras, que são muitas e devem ser domadas, mal rompem as manhãs. Daí novas descobertas e posturas. 

 

Os dados são lançados! O novo prazer serve para o início de debates e incursões. Os textos lidos inspiram os alunos e os lançam à produção de textos nos quais a mulher terá um desfecho diferente, um papel de destaque; iniciam-se também a elaboração de wikis, fóruns e dicionários coletivos, privilegiando o uso de ferramentas que auxiliem na inclusão digital. Não basta somente escrever: Navigare necesse![1]. Estes jovens e os jovens não-tão-jovens aprendem que são partes de um todo na globalização do saber. Desta forma, mesmo no isolamento social necessário, abrem-se as asas metafóricas para um novo voar. 

 

A batalha, interrompida em períodos de Coronavírus, foi vencida no final de uma aula. As noites se sucedem, o tempo passa rápido e para muitos. Os olhos que, no início, carregavam dúvidas e medos, trazem certezas e esperança. O tempo pode e deve ser aproveitado ao máximo. Mesmo durante o período de quarentena, Allan Poe, Conceição Evaristo, Drummond, Camões, Varela, Castro Alves e tantos outros serão companheiros e amigos de uma caminhada. Seus textos trarão sempre à mente o prazer do texto e da escola, mesmo em sua transitória ausência.

 




[1] “Navegar é preciso, viver não é preciso” famosa frase atribuída ao general romano e triúnviro Cneu Pompeu Magno, presente no livro “Vidas Paralelas”, de Plutarco (  46 d.C. –  120 d.C. )

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: