Por que discutir gênero na escola?

Por que discutir gênero na escola?

Colégio Santa Maria

22 Abril 2016 | 07h30

Autoria: Mayra Oliveira Lourenço    

 

Em 2015, a retirada do termo “gênero” dos planos federais, estaduais e municipais de educação marcou um grande debate público, com manifestações nas assembleias de todo o país, opondo militantes em favor da educação pela diversidade e a bancada religiosa denunciando a existência de uma “ideologia”.  A questão que se apresenta é por que esta palavra gera tantas discussões? Como pensar o gênero na sala de aula pode interferir na prática educacional? Construir um posicionamento coerente passa por compreender o significado político de gênero e suas potencialidades transformadoras.

Gênero é um conceito construído no campo das ciências sociais que procura compreender a construção das identidades. Sua origem está ligada aos movimentos feministas que questionaram a naturalização das diferenças entre homens e mulheres que justificavam a desigualdade e a exclusão. As mulheres procuraram contestar os pressupostos biológicos que marcam comportamentos femininos e masculinos.

O conceito refere-se às construções sociais reiteradas por meio de discursos, símbolos, regras, representação e marcadores, que procuram definir comportamentos e modos de ser distintos entre homens e mulheres. Assim, gênero chama atenção para a construção cultural da diferença entre homens e mulheres associada diretamente ao sexo, pois mesmo que existam diferenças físicas entre os indivíduos, os significados construídos sobre elas são históricos e sociais.

É importante destacar que discutir gênero na escola não significa falar de mulheres, mas evidenciar os valores e diferenças que são construídas sobre os corpos, na medida em que o termo chama atenção ao caráter relacional da diferença.  Trata-se de perceber o caráter limitado do binarismo que não contempla a diversidade e complexidade, já que fixa e naturaliza cada gênero. Desconstruir significa: mostrar seu caráter histórico, descobrindo processos, condições das desigualdades implicadas nesta polaridade.

Defender a escola como espaço do saber, da diversidade e do respeito, passa pela reflexão sobre as construções de padrões e normas que criam a exclusão. Pensar o gênero nas práticas cotidianas não pressupõe a sua destruição, mas a reflexão de que outras existências que não se encaixam entre os dois polos tradicionais são possíveis. Faz-se necessário recorrer a estratégias que questionem a representação hegemônica de oposição e desigualdade, tais como a recusa de separar os dois polos em cores ou brincadeiras e privilegiar a cooperação e aliança entre os diferentes sujeitos que, não necessariamente, se sintam contemplados pela oposição homem X mulher.

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Fonte da imagem: http://fundacaotelefonica.org.br/noticias/a-importancia-de-se-discutir-genero-na-escola/