Por que construir significados?

COLÉGIO SANTA MARIA

14 de setembro de 2020 | 07h30

Autoria – Caio Leite

 

Dois mil e vinte foi um ano de muitas perdas e é estranho escrever o verbo no pretérito, sendo que ainda estamos no curso desses 365 dias. Muito provavelmente, o fiz porque há um desejo íntimo de que isso tudo passe logo e seja possível reconstruir a vida, mesmo sabendo da importância de se vivenciar e experenciar todas as coisas em sua intensidade, sendo boas ou más: cabe a cada um de nós ressignificar os eventos marcantes de nossa história.

 

Diante de tantas perdas, questionamos qual o ganho de tudo isso e tentamos colocar a vida num jogo binário de certo e errado, bom e mau, perdas e ganhos… Essa tentativa acaba por destituir a complexidade da vida e a ciência de que não temos controle sobre os acontecimentos, restando-nos apenas uma atitude afirmativa com entrega, amor, paixão. Não pretendo, então, escrever sobre perdas ou ganhos, mas sobre significado. Se a primeira opção seria uma lamúria sem a possibilidade de mudar o real e a outra uma simplificação da vida, opto pelo “terceiro lado da moeda” e pretendo pensar em significados.

 

Em junho desse presente ano, precisamente na penúltima semana do mês, os alunos do 9º ano do Santa Maria deveriam ter realizado a tradicional viagem para o Vale do Ribeira, momento de imersão nas ações do voluntariado junto às comunidades daquele local. Evidentemente, a viagem não ocorreu e foi mais uma perda, entre tantas outras, a ser somada na trajetória desses meninos e meninas que, no auge de seus 14 anos, foram privados dessa experiência em decorrência da pandemia.

 

No começo de março, pouco antes da eclosão do isolamento, contávamos com uma média de 90 adolescentes engajados e dispostos a doar seu tempo e amor para as pessoas daquele local e receber aprendizados, carinho e lições de vida inimagináveis em cada gesto, ação e momento vivido. De fato, a não ida ao Vale os fez perder essa experiência, o que não diminui a construção de um significado diante da realidade.

 

A força alcançada diante da crise, a ligação ou a troca de mensagens para um(a) amigo (a), a redescoberta da vida familiar, a saudade das pessoas amadas, a nova forma de convívio cotidiano no Colégio de maneira remota, a exigência de maior responsabilidade no contexto de liberdade do ensino a distância e tantas outras questões do foro íntimo de cada indivíduo revelam que, independentemente das perdas, somos capazes de dar novos sentidos e significados para a vida.

 

Uma das lições mais poderosas desses tempos é, portanto, aprender que somos incapazes de viver sozinhos e isso nos mostra que há um chamado à vida e uma necessidade de se entregar inteiramente a ela.

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