Por que amamos Hugo Cabret?

Por que amamos Hugo Cabret?

COLÉGIO SANTA MARIA

06 de janeiro de 2020 | 07h30

Autoria – Luciane Chiochetti

O livro “A Invenção de Hugo Cabret” é, dentre tantas qualidades, uma obra de arte. É um livro/filme, daqueles em preto e branco, desenhados cuidadosamente com carvão embelezando todas as páginas. É uma homenagem ao cinema, contado através de uma história sobre George Méliès e da sua “Viagem à Lua”. Um livro com 500 páginas que intercala pequenos textos, fotos de época e belas ilustrações que dão movimento à história que serve como guia para uma leitura visual recheada de suspense, ação e amizade.

Hugo é um garoto de 12 anos que vive numa estação de trem em Paris no começo do século 20. Seu pai, um relojoeiro que trabalha em um museu, morre pouco depois de mostrar a Hugo a sua última descoberta: um autômato. Hugo faz amizade com uma jovem que tem uma chave que cabe no fecho existente no robô. É o início de uma surpreendente aventura.

Para iniciarmos o trabalho de leitura do bimestre, no 5º ano do Santa Maria, apresentei o livro para análise da diagramação (bordas pretas, páginas brancas preenchidas de forma desigual) para possibilitar o prazer pela leitura por meio das imagens, de tal forma que o primeiro contato com o livro já convidasse os alunos à leitura. Veja uma pequena amostra desta observação:

Combinamos sobre como seria o processo de leitura do livro: lido em partes, em casa e também na escola. O que pretendia era verificar como os alunos se posicionariam em relação ao livro: o que apreciaram ou não na história e na forma como foi contada e por quê; o que pensaram em relação à situação vivida pelas personagens etc; enfim, desafiei‐os a se colocarem frente à história: “Vocês seriam capazes de dialogar com o livro, de prever acontecimentos na história antes de lê‐los e de emitir uma opinião fundamentada sobre o livro?”.

Durante o processo de compreensão leitora, aconteciam várias intervenções com perguntas disparadoras que permitiam aos alunos estabelecerem relações com suas próprias vidas. Desta forma, os alunos eram incentivados a buscar elementos que mais se aproximavam de sua relação com o texto. Teve quem escolhesse desenhar uma bota justificando: “George não suportava o barulho que os calçados faziam no assoalho de sua loja, pois sempre se lembrava de que seus filmes haviam sido derretidos para a fabricação de solados de sapatos. Isso doía muito nele. E eu também não suporto alguns ruídos. Sempre tem algo que escuto e que me incomoda. Por isso eu fiz esse desenho, porque, assim como o George, eu também tenho ruídos que me incomodam”, justificou Salomão, do 5º ano F.

Para finalizar esse projeto de dois meses, assistimos ao filme para que pudéssemos conversar sobre o que conseguiram perceber sobre George Méliès, estabelecendo comparações entre a narrativa do livro e do filme. Os alunos também puderam perceber com mais clareza as possíveis relações entre os avanços tecnológicos e o desenvolvimento dos recursos utilizados para a produção de filmes. Foi importante refletir com a turma a dualidade da situação: fé nas possibilidades de que a tecnologia traria uma vida melhor e a dificuldade da vida da população, com necessidade de viver mais através do sonho e da fantasia.

Assim como Salomão, outros alunos foram levados a explicar seus registros e, confesso, não houve nada mais significativo para a turma do que ouvir os colegas de classe mostrando suas vulnerabilidades, esperando serem compreendidos por suas escolhas. O trecho abaixo, retirado do livro, justifica o resultado deste trabalho:

 

“Gosto de imaginar que o mundo é uma grande máquina. Você sabe, máquinas nunca têm partes extras. Elas têm o número e tipo exato das partes que precisam. Então imagino que se o mundo é uma grande máquina, eu também estou nele por algum motivo. E isso significa que você também está aqui por alguma razão.”

 

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