Para não dizer que não falamos de 68

Para não dizer que não falamos de 68

COLÉGIO SANTA MARIA

23 Fevereiro 2018 | 07h30

 Voltamos a esse espaço para atualizar e dividir com os leitores e as leitoras nosso trabalho com a saída de estudo na 3ª série do Ensino Médio do Santa Maria. Em 2017 estivemos aqui relatando como ressignificamos o estudo do espaço urbano paulista mapeando os sítios de memória relacionados com a repressão e a resistência nos dois períodos ditatoriais que marcaram a História do Brasil no século XX – o Estado Novo de 1937 a 1945 e a Civil-Militar de 1964 a 1985.

 

Experiência supergratificante e com forte impacto na formação da última série do Médio, teve como resultado final a produção de vários roteiros sobre os mesmos períodos, só que agora produzidos pelos alunos a partir de um eixo escolhido por cada grupo: teatro, movimento estudantil ou operário, instituições de ensino e tantos quantos puderam servir para testemunhar no espaço da cidade de São Paulo a luta contra os totalitarismos.

 

Aproveitaremos 2018 para aperfeiçoar a saída, complementar as monitorias, afinar as parcerias com as várias instituições que abriram as suas portas para dividir conosco suas narrativas. Mas não somente aperfeiçoar. Vamos atualizar em pelo menos dois sentidos. No plano geral, que coloca o projeto pedagógico do Colégio Santa Maria antenado com o que nos cerca, com o país, com o mundo e, no particular, circunscrito à prática do Ensino Médio do Santa e coadjuvante do Projeto de Área desse ano.

 

Vejamos, então: um dos temas que já sabemos ocupará as mesas de debates, publicações, exposições, documentários será os cinquenta anos do furacão que foi, para o mundo e para o Brasil, o ano de 1968.

 

Coração da incendiária década de 60, já anunciava uma torrente de mudanças que foram do comportamento individual ao questionamento do modelo de Estado. Há uma discussão muito consistente que nos permite entender o particular potencial da geração de 68. Observamos que se trata da primeira leva do pós Segunda Guerra que não viveu as agruras do conflito e da imediata reestruturação econômica. Para quem era adulto em 1945 tudo deveria ser sacrificado em nome da prioridade da reconstrução. Pois bem, a geração que é jovem em 1968 já nasceu na fartura, no Estado de bem-estar social, na sociedade da expansão do consumo. Assim, ela pode usar o seu tempo para ir além. Ela não quer só “comida”, ela quer “diversão e arte”. Quer questionar o padrão de família, os limites da sexualidade, as novas formas de espiritualidade, os entraves às relações de maior equidade – étnica, social, política, cultural.

 

Não por acaso 1968 marcou o auge da luta anti-apartheid nos EUA, ano da morte de Martin Luther King e Robert Kennedy. Mas também das marchas contra a Guerra do Vietnã que vivia seus estertores, pela libertação feminina, por formas alternativas de linguagens – de consumo e de expressão artística. Foi o ano da explosão da rebeldia de uma juventude em vários pontos do mundo, de Berkeley a Tóquio, de Londres à cidade do México, de Praga a São Paulo.

 

Na América Latina, particularmente no Brasil, 1968 esteve relacionado à luta contra a ditadura Civil-Militar instaurada em março de 1964. Foi um ano tomado pelos gritos de “Abaixo a ditadura” nas manifestações de rua que reuniam vários setores da sociedade (não somente jovens estudantes de classe média), nas peças de teatro, nos festivais de canção, nas greves operárias. Não por acaso foi o ano antecipadamente encerrado no dia 13 de dezembro com a edição e outorga do Ato Institucional nº 5 que escancarou as intenções dos militares, com franco apoio de setores econômicos e políticos, aqui e acima da Linha do Equador. A repressão ganhava outra dimensão e emudeceria no curto prazo as expressões de resistência.

 

Num outro espectro, aquele mais particular, queremos inserir o debate no tema gerador do Projeto de Área das Humanidades para 2018.

 

Num ano que queremos discutir a vivência de nossas e nossos estudantes com os distúrbios psicológicos e psiquiátricos – tema eleito democraticamente pelo corpo discente do Santa Maria -, também vamos colocar 1968 como paradigma de um tempo em que a “loucura” era procurada pelos artistas mais radicais como experiência de transcendência da imaginação. Mas, também como o suicida combate ao racismo, ao patriarcalismo, ao nacionalismo, aos regimes de exceção que impunham-se em países tão diferentes como o Brasil e Tchecoslováquia. Tudo era exercitado no seu limite, tudo vivido “como se não houvesse amanhã”. Eram os loucos anos 60, o piromaníaco 1968.

 

Imaginem, então, que em nossa saída de 2018 vamos privilegiar essas discussões e, novamente, exercitar esse caminhar pela cidade decifrando seus vários significados.

 

Rio de Janeiro, junho de 1968

 

Paris, maio de 1968

 

 

 

 

 

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