Para além dos objetivos propostos

Para além dos objetivos propostos

Colégio Santa Maria

13 de setembro de 2019 | 07h30

Autoria: Roberto Wagner Carbonari

Quando o assunto a ser trabalhado é Geometria Espacial, tenho observado que os conceitos envolvidos encantam parte dos alunos e, ao mesmo tempo, afastam outros, a ponto de fazer com que os que não se encantam e sentem dificuldades com o nível de abstração exigido comecem a achar que tudo é muito difícil e que é impossível de aprender. O fato é que temos que usar o olhar plano e espacial para relacionar os conceitos, saindo e voltando de tais dimensões o tempo todo.

Este ano, ao fazer o planejamento do curso de Matemática da 3ª série do Ensino Médio do Santa Maria, fiquei pensando: como poderia aproximar a Geometria Espacial de um número maior de alunos? Depois de muito pensar no que fazer, cheguei a uma estratégia para criar um clima de curiosidade frente a algo desconhecido, que poderia contribuir com a aprendizagem.

Preparei uma sala previamente colocando no centro de uma roda uma mesa com uma caixa contendo diversos sólidos geométricos em acrílico e a cobri com um lençol. Levei cada turma para a sala, que não era a nossa sala de aula normal. Pedi para os alunos e alunas que fizessem o trajeto até a sala, em silêncio e que fossem pensando: quais são seus medos?

Ao chegarem na sala, sentamos em roda e pedi silêncio a todos para que pudessem ouvir o que cada um tinha para falar a partir da pergunta inicial. Iniciaram com certo receio e aos poucos perceberam que não havia uma resposta esperada e que o importante era ter sinceridade na resposta.

As respostas foram as mais inesperadas: tenho medo de barata, de insetos, de aranha, de escuro, do desconhecido, de ser pai antes dos vinte anos, de perder meus pais, de perder minha mãe, de não conseguir me casar, e por aí foram as descrições dos medos.

A cada medo, parávamos e discutíamos sobre o tema e procurávamos conversar sobre o assunto. Medo de alguma coisa todos têm. O que fazemos com esse medo para que não fiquemos aprisionados, paralisados e sem qualquer reação frente a ele, é com o que devemos nos preocupar, refletir e pensar. E por aí fomos passando por cada medo.

Só para relembrar, o objetivo inicial era a apresentação dos sólidos geométricos para iniciarmos o estudo da Geometria Espacial.

Após o diálogo sobre os medos, perguntei quem gostaria de colocar a mão sob o lençol e dentro da caixa, sem mostrar e nem falar em que estava colocando a mão, mas podendo responder com sim ou não as perguntas que o grupo quisesse fazer. Apareceram então alguns voluntários e demos prosseguimento à atividade. Mesmo para alguns voluntários, era nítido o medo de colocar a mão na caixa. Aos poucos o medo foi trocado pela curiosidade e o número de pessoas querendo colocar a mão na caixa aumentou.

É claro que com o passar da atividade, e sabendo que o próximo assunto a ser trabalhado nas aulas de matemática era Geometria Espacial, o diálogo e as perguntas começaram a girar em torno de tais conceitos. Descobrimos então a caixa e lá estavam os lindos sólidos transparentes em acrílico. De forma bem rápida, fiz uma apresentação de cada um deles, procurando classificá-los de acordo com algumas características, mas sem fazer com que elas fossem o mais importante da atividade, pois eram assuntos e conceitos para as próximas aulas.

Ao término da aula, confesso que não sabia quem tinha gostado mais da atividade, se era eu ou os próprios alunos e alunas.

O objetivo inicial tinha ficado pequeno perto do que tinha ocorrido. A atividade humanizou a relação de cada um deles comigo, mas também entre eles. Ocorreu uma aproximação muito grande nas relações que ainda estavam por vir. Fez com que nos conhecêssemos melhor. Ouvi receios deles que jamais, como professor de Matemática, pensaria em poder ouvir, e o mais importante, muitos dos elementos conhecidos ali serão úteis e de extrema importância para a construção dos conceitos ainda por vir, nas nossas próximas aulas e em nossa relação a ser construída, aluno-professor.

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