Pandemia exige autonomia dos estudantes

COLÉGIO SANTA MARIA

09 de outubro de 2020 | 07h30

Autoria – Marcos Vinícius Appollo

São inúmeras as perdas com a chegada da pandemia. Se eu tentasse listá-las, acabaria o limite de palavras deste texto e ainda assim não seria o suficiente. Mas, como na vida, a menos que me provem o contrário, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim.

Sou professor de Física de Ensino Médio há bastante tempo: quase 30 anos. Desde a LDB de 1996 utiliza-se este termo “Ensino Médio”, que antigamente era conhecido como segundo grau e, antes disso, colegial. Algo que gosto de comentar com as minhas alunas e alunos é que acredito ser bastante adequado o seu nome atual. Não se trata do ensino fundamental, em que as/os estudantes são crianças ou pré-adolescentes e que estão literalmente construindo os fundamentos da sua vida escolar, nem tampouco ensino superior, onde elas e eles são adultos e respondem por si próprios, pelo menos perante a lei. O Ensino Médio literalmente está mediando esses dois períodos da educação. Além de estar intercalada entre duas fases da educação, esta etapa contempla a transformação da criança em adulto, ou seja, tratamos principalmente com adolescentes. Costumo dizer que, ao longo do Ensino Médio, vamos gradativamente transferindo a “rédea da carroça” para as mãos delas e deles.

Dentro deste contexto de transição que as/os jovens estão passando, o que mudou com a pandemia? Muita coisa. No período presencial muita coisa era diferente: primeiro a maravilha da interação próxima com toques, abraços e conversas próximas, sem nenhuma preocupação – o inigualável olho no olho. O isolamento social, pelo menos para quem o segue com seus protocolos, exigiu que não deveríamos estar juntos numa sala de aula para podermos interagir. No momento em que estão em casa, diante de um computador ou de um celular, possivelmente dentro de um quarto, eles e elas não têm mais os olhos de educadores e de seus colegas à sua volta e, por consequência disso, suas escolhas são mais flexíveis. Cabe ressaltar que cada um também tem a possibilidade de ver o restante do grupo. O mais comum durante minhas aulas são as câmeras desligadas. Significa, entre outras coisas, “prefiro me resguardar do olhar do outro”.

Minhas avaliações neste ano se tornaram com consulta, uso de calculadora, realizadas em casa e fotografadas para serem enviadas. Outra diferença que pude perceber foi nos exercícios numéricos, avaliados ou não, que me são entregues pelo ambiente virtual. Vejo a diagramação de exercícios muito parecida umas com as outras. Nesse tipo de exercício, realmente, a sequência de resolução é muito semelhante: temos que separar os dados, escolher a fórmula adequada, resolver a equação que surge e apresentar a resposta final com a sua devida unidade. Por mais que os exercícios corretos sejam muito semelhantes entre si, existe um fator pessoal de como organizar estas etapas.

No momento em que vejo muitas resoluções entregues com a diagramação MUITO semelhante, infelizmente acabo julgando que alguns alunos ou alunas optaram pelo caminho mais fácil de copiar a resolução da/o colega. Reforço que isto é um julgamento, por mais que a minha vivência ajude a confirmar minha suspeita. Se isso realmente estiver acontecendo, eu lamento muito, pois a perda principal será para quem está optando pelo caminho mais rápido. Normalmente, quando pegamos um atalho, nosso tempo de travessia costuma ser menor. Mas, se não conhecemos o caminho mais longo, com certeza nossos pés, nossos olhos e nossos ouvidos perdem a oportunidade de conhecer este novo caminho mais longo com suas paisagens inéditas e com seus obstáculos também. Para alguns estudantes talvez esta perda seja realmente irrelevante, mas para outros será impossível de ser resgatada.

Dentro do meu quadro de instrumentos de avaliação está incluído um conceito de procedimento onde as/os estudantes analisam sua presença e participação em aula, sua organização, se seu caderno de registros está completo, enfim, como tem sido a sua atitude e organização durante o curso de Física. Tanto neste instrumento quanto nas avaliações, as/os estudantes têm total liberdade de analisar qual foi a sua produção, quais são as suas dificuldades e seu empenho no bimestre. Este resultado, que no Colégio Santa Maria será representado por uma letra entre A e E, será consequência principalmente do domínio das habilidades e conceitos abordados e, principalmente, de como a rédea estará em suas mãos, qual foi a sua escolha para chegar neste resultado. Junto com algo muito valioso que ganhamos, normalmente recebemos no mesmo pacote, uma grande responsabilidade.

Por mais que esta reflexão aborde principalmente estudantes de Ensino Médio, acredito que em vários aspectos esta mudança de paradigma se aplica a mim e a você. Sejamos responsáveis.

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