Palhaços Graças a Deus

Palhaços Graças a Deus

Colégio Santa Maria

04 Outubro 2016 | 08h00

Autoria: Rita Pisano

O teatro sempre esteve presente no Colégio Santa Maria, tanto nas disciplinas curriculares como nos cursos extra classe. O grupo de teatro Palhaços Graças a Deus, que faz parte dos cursos extracurriculares, é composto por alunos de 9o ano e Ensino Médio e foi criado em 1981 sob a coordenação e iniciativa da professora Linei Hirsch com a montagem “Pelos Caminhos do Arco-Irís”, mas  somente no final de 1983 é que o grupo assumiu oficialmente o nome que pelo qual é conhecido.  A professora Linei esteve à frente do Palhaços até o ano de 2004, criando nesse período uma forte cultura teatral no Colégio.

Em 2005, eu, recém-saída de diferentes processos de pesquisa em teatro, cheia de ideias, vontades e sonhos, assumi a direção do grupo com a responsabilidade de manter aceso esse espaço criativo. Desde então, a condução desse trabalho caminha para criar um espaço de encontro e escuta desses jovens que podem, através do teatro, entrar em contato consigo, relacionar-se com o mundo que os rodeia e se colocar artisticamente frente a ele.

As aulas acontecem em encontros semanais com 3h20m e a turma é coordenada como um grupo teatral em que cada participante tem uma responsabilidade coletiva com a montagem e a pesquisa a ser realizada. Os encontros começam sempre com uma “roda de indicações”, um momento onde podemos organizar saídas ao teatro e ao cinema, trocar livros e pensamentos, num ambiente horizontal onde todos têm o que dizer e o que ouvir.

Os ensaios seguem na sequência e são organizados pensando na trajetória da montagem. Começamos o trabalho reconhecendo o grupo e passamos alguns meses descobrindo o que queremos dizer e a partir dessa escolha toda aula é pensada em função dela.

Leituras, exercícios corporais, vocais e principalmente o convívio no grupo vão trazendo o corpo daquilo que vamos apresentar, revelando a cada dia como o teatro é um ofício artesanal que depende do trabalho constante e vertical dos envolvidos, além de evidenciar que o teatro é uma arte coletiva.

Vivenciamos no Palhaços a máxima de que não é possível fazer teatro sozinho. O outro é parte importante na criação individual (e essa consciência me parece fundamental em tempos de intolerância como vivemos atualmente). Encontrar no outro uma leitura diversa para determinada situação, para um filme, para a resolução de uma cena ou de um problema permite que aprendamos a conviver respeitosamente com a diversidade; abre espaço para colocarmos nossa opinião com clareza (e por vezes mudá-la) e principalmente nos dá a chance de abrir nosso olhar para outras formas de ver o mundo.

O prazer e a experiência subjetiva também valem ressalva. A experiência vivida por cada integrante do grupo está intrinsecamente arraigada com o processo criativo, pois entendo que experiência “é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca.”(Larrosa, Jorge). Assim sendo, cada aluno tira algo único do percurso que traça no grupo. Olhar no olho, ficar em silêncio, movimentar-se de maneira não convencional, falar um texto de outro e encontrar nele seus sentidos implícitos, tocar e ser tocado, sensibilizar-se e saber desenhar um personagem, tornam-se maneiras de exercitar uma convivência repleta de significado. O prazer aparece como o combustível que nos faz estar ali criando juntos. Ele dá sentido à entrega de cada um para o trabalho.

Os alunos que participam da aula precisam, apesar do diretor/professor, gerenciar seus próprios caminhos para que possam no coletivo e, também individualmente, elaborar sua própria experiência e ‘se dar conta’ de que são criadores, corresponsáveis, autores. Nesse sentido, meu trabalho como professora no grupo vai além de mediar um jogo ou ensinar uma linguagem cênica. É na relação criativa com os alunos que acontece o  processo de construção artística. Paulo Freire nos diz “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”,  Rancière amplia a discussão afirmando que o professor “não ensina o conhecimento dele aos alunos. Ele inspira estes alunos a que se aventurem pela floresta…..” . Nesse convite para o desconhecido, que faz parte da criação artística, o meu ofício pede que eu me coloque em parceria, pede que eu faça junto, que eu me arrisque. Eu também preciso estar em processo, eu também estou descobrindo um percurso, eu também entro na floresta, eu também preciso ser tocada. E posso dizer que constantemente sou.

Em nossas apresentações, os ex-alunos estão sempre presentes e  são bem-vindos. Muitos se tornam colegas de profissão (atores, professores de teatro) e posso dizer que é maravilhoso encontrá-los em outros palcos e coxias. Outros, que seguem caminhos diversos, trazem em comum uma experiência prazerosa, marcada no corpo e na alma dos tempos de teatro no Palhaços.

A experiência no Palhaços é um convite ao encontro; um convite para entrar em contato consigo, vivenciar outras realidades, chegar perto, tocar, olhar e sentir. Ações essas que quando vividas de verdade viram parte de quem nos tornamos e são inesquecíveis. O teatro nos permite alargar o tempo, criar lacunas, construir histórias, reinventar-nos… penso (e sinto) que é uma sorte poder viver essa aventura junto com uma turma de jovens aberta a novas escutas e a novos encontros. Vida longa ao Palhaços!

 

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