Palestra no Colégio Santa Maria

COLÉGIO SANTA MARIA

28 de maio de 2019 | 16h25

Autoria: Muna Zeyn

 

A convite da professora Maria Cecília, diretora pedagógica do Colégio Santa Maria, estive naquela instituição de ensino no dia 24 de abril para uma conversa com as alunas do EJA sobre a minha experiência no enfrentamento à violência doméstica contra a mulher.

Comecei minha fala dizendo que no Brasil, atualmente, a cada duas horas uma mulher é assassinada pelo marido, ex-marido ou companheiro, quase sempre dentro de sua casa e, em alguns casos, na presença de filhos pequenos.

São violências que se revestem de muita crueldade e humilhação contra a mulher, demonstrando que o agressor está dominado por um doentio e perverso sentimento machista.

No diálogo com as alunas, abordamos sobre como as vítimas reagem à violência que sofrem. Algumas levam muito tempo, anos até, para dar o primeiro passo no sentido de se livrarem da frequente violência da parte dos parceiros, o que significa que nem todos os casos de violência doméstica são denunciados  e registrados. Portanto, o número deve ser muito superior ao dos que são notificados, ou seja, a tragédia é bem maior do que a que chega ao conhecimento público.

A nossa conversa fluiu livremente em uma troca entre a realidade vivida por aquelas mulheres e a minha experiência no combate à brutal violência contra as mulheres.

No diálogo, ficou claro que esse tipo de violência tende a ser naturalizado pela sociedade, tal é a frequência em que tais fatos ocorrem. Temos que nos insurgir contra isso e evitar que a naturalização contribua para a impunidade dos que cometem crimes contra a vida, a dignidade e os direitos humanos da mulher.

Nos primeiros momentos da conversa, as alunas ficaram em silêncio, mas começaram a reagir depois que eu relatei alguns casos de violência e como são vistos com naturalidade como se o homem fosse “dono da mulher” e, como tal, teria direito de violentá-la.

Temos que ajudar as mulheres a reagir a não se calar e a denunciar toda e qualquer violência que vierem a sofrer da parte do homem, mesmo que ele seja o pai de seus filhos.

Para tanto, ela precisa se sentir segura, apoiada e encorajada a superar o medo e a humilhação.

Nesse momento, uma aluna começou a falar sobre o seu próprio caso, como enfrentou a violência do seu parceiro dentro de casa e na frente de seus filhos.

A partir desse primeiro depoimento, outras mulheres se encorajaram e também se abriram, rompendo o silêncio, o que só ocorre quando a vítima se sente segura e aceita pelo interlocutor.

É evidente que elas já vêm sendo orientadas no próprio colégio para enfrentaram as situações de violência doméstica de que são vítimas; a não se calarem, e a se defenderem usando os meios que o poder público oferece, como as delegacias da mulher, as casas abrigo, bem como as entidades da sociedade que se dedicam às mulheres vítimas de violência.

A delicadeza dessa questão explica o silêncio das vítimas que demoram ou resistem a procurar ajuda para se livrar da situação de violência e do risco iminente de serem assassinadas, daí a importância delas frequentarem um ambiente como o desse colégio, cuja direção e a equipe de professores estão atentos e preocupados com esse grave problema, quase sempre invisível e que, lamentavelmente, por falta de uma política pública de prevenção, muitos casos chegam ao desfecho fatal do assassinato da mulher, engrossando a escalada de feminicídio que configura na verdade tragédia.

Pelo depoimento das alunas deu para perceber o importante papel de uma instituição de ensino como o referido colégio na formação e preparo das jovens, para além da instrução formal, ajudando-as a enfrentar situações extremas de suas vidas, como, no caso, a violência doméstica. E isso, pelo que se vê, é feito de forma cuidadosa e protegida quanto à privacidade das vítimas. Esta é uma das formas mais eficazes de se combater a violência doméstica contra a mulher; compreendi que a educação não sexista prepara a mulher para romper o ciclo da violência, e ter preservada sua dignidade e seus direitos humanos. É o que fez o Colégio Santa Maria, tornando-se alvo do nosso reconhecimento e admiração.

Parabéns, portanto, à direção e a todas e todos os que fazem o Colégio Santa Maria, na esteira do que prega o Papa Francisco, profeta do nosso tempo.

 

Muna Zeyn, professora universitária, Chefe de Gabinete do Mandato Deputada Federal Luiza Erundina

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