Outros outubros virão, cheios de sol e de luz   

Outros outubros virão, cheios de sol e de luz  

COLÉGIO SANTA MARIA

31 Março 2017 | 07h30

Autoria: Sônia Brandão

 

Sempre que pensamos em datas reverenciadas em comemorações oficiais (o 7 de setembro, o 15 de novembro), associamos logo aos períodos da História do Brasil marcados pelas ditaduras (do Estado Novo de Vargas – 1937\1945 e a civil-militar mais recente – 1964\1985). Inventar saudações, recheadas de discursos nacionalistas, com desfiles militares, exibição dos símbolos da nação e exaltação da juventude são ações privilegiadas dos regimes autoritários para os quais as datas também têm o papel de teatro das rememorações – verdadeiras ou fabricadas, tanto faz. Não obstante, podemos também subverter essas expectativas. Em vários momentos da História, narradores que fora do poder político impuseram uma pauta de discussão a partir de eventos que diziam respeito a esses que estavam à margem. É assim que chegamos ao ano de 1917.

 

Em História lidamos com algumas datas que parecem catalisar as urgências de uma época, de sua sociedade e cultura. É assim que podemos entender 1848, 1968, 1989 e os vermelhos meses de 1917.

 

A grande imprensa e os infantis (mas nem por isso inocentes e bem intencionados) votos desejados, virtual ou pessoalmente, no último 8 de março, apontam que o Dia Internacional da Mulher nasceu de uma greve de operárias russas do setor têxtil de Petrogrado. No rastilho da marcha das operárias – que os soldados se recusaram a reprimir peitando a autoridade do Czar -, a represada revolução socialista iria incendiar a Rússia e inaugurar o imaginário da esquerda política e dos movimentos sociais mundo afora.

 

Estamos falando de um imaginário que imprimiria sua marca até o final do século XX. Não é pouca coisa para esse curto século. Operários, soldados, camponeses, homens e mulheres russas subverteram o grande parâmetro revolucionário de até então (a Revolução Francesa de 1789), tiraram das mãos da burguesia o protagonismo histórico, imprimiram o ideal de coletivo, ampliaram e requalificaram a utopia de liberdade e igualdade, impuseram uma concretude para a bandeira de “Paz, Terra e Pão”.

 

O Ocidente tremeu. A ideia de construir um “corredor sanitário” (termo da medicina, muito apropriado para a patologização dos movimentos populares) para isolar a Rússia – a partir de 1922, URSS, ainda sob o comando de Lênin – e evitar a contaminação do Ocidente pela doença do comunismo vai alimentar todo o discurso ocidental até o final da Guerra Fria. Não esqueçamos também que o combate a essa doença voltou a ilustrar várias manifestações em nossos dias, encabeçada por uma turba raivosa que não pode ser considerada liberal e nem mesmo conservadora clássica.

Lembremos também que os febris acontecimentos de 1917 na Rússia se inserem na também explosiva Primeira Guerra Mundial (1914-1918), um conflito interminável, com um saldo de mortos surpreendente, um grau de destruição catastrófico, que assombrou a Europa durante anos e não poupou sequer os vencedores da Entente. Da “desgraçada guerra”, não esqueçamos, emergiriam os fascismos, outro elemento que voltou para as nossas avenidas, neste nosso tempo presente.

 

Do outro lado do Atlântico, no mesmo incendiário 1917, São Paulo parava com uma greve geral decretada pelos trabalhadores da indústria e do comércio, com a adesão de funcionários públicos. O rastilho aqui foi o setor têxtil (a partir da tomada das fábricas da família Crespi na zona leste de São Paulo). Lembremos que o movimento operário brasileiro desse tempo era fortemente marcado pelo anarquismo e socialismo (que chegavam nas bagagens dos imigrantes italianos e espanhóis atraídos pela oferta de trabalho desde  meados do século XIX) e seus braços estavam não só nos sindicatos, mas também na imprensa, na educação, nas artes, nas cooperativas. Exigiam melhores condições de trabalho, proteção para as trabalhadoras e crianças, diminuição da jornada de trabalho, melhores salários.

 

Os grevistas foram duramente reprimidos pelo prefeito Washington Luís e pelo governador Altino Arantes. Neste nosso Brasil de ampliação da terceirização, reforma da Previdência e de desmonte de direitos trabalhistas – sempre lembrando que, por exemplo, as empregadas domésticas só conquistaram o direito ao FGTS em 2015 e ainda hoje existem formas diretas ou análogas de trabalho escravo em nosso país – é bom rastrear a origem das conquistas dos trabalhadores brasileiros, que levaram ao caráter social avançado da Constituição de 1934 e, mesmo sendo depois capturada pela figura de Vargas, na importante CLT de 1943.

 

Que privilégio, não?

 

Viver 2017 e ser professora de História da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Santa Maria, nos possibilitará fazer essa discussão toda (todos os temas levantados nesse artigo fazem parte do programa curricular da série) e finalizar o ano com uma Exposição que encerrará o Projeto de Área, cruzando os temas: luta das mulheres, greve e revolução.

 

Bons ventos podem soprar dessa experiência.

 

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