Os desafios das fake news sobre Ciências

Os desafios das fake news sobre Ciências

COLÉGIO SANTA MARIA

03 de maio de 2019 | 10h03

Autoria: Helika Chikuchi

Uma das competências gerais expressas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) do Ensino Médio espera que o aluno seja capaz de “compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva” .

Nas aulas de Biologia do Colégio Santa Maria esta já tem sido uma das metas a serem alcançadas pelas professoras, especialmente na medida em que o letramento científico dos alunos vai aumentando.

Cabe ressaltar que os alunos que estão atualmente no Ensino Médio já nasceram sob influência da cultura digital e cresceram convivendo com as primeiras redes sociais. Assim, para eles é natural que o Facebook, Instagram, Youtube, Whatsapp sejam ambientes onde se expressam, consumam, produzam e divulguem informações, mas ao mesmo tempo, como jovens estudantes, ainda precisam aprender a olhar de forma crítica e responsável para as informações que circulam nessas plataformas.

Estando conectadas na internet e fazendo parte das redes sociais, as pessoas em geral recebem e enviam uma imensa quantidade de informações provenientes de fontes nem sempre confiáveis, em escala planetária e em tempo real.

Diante do volume e da rapidez com que as informações chegam, a capacidade de analisar criticamente os conteúdos acaba ficando comprometida: o que é, afinal, a verdade num mundo digital povoado de “fake news”, ou seja, de notícias falsas, frequentemente manipuladas para atenderem a interesses políticos, econômicos ou pessoais?

Esse cenário de incerteza, insegurança e também de angústia pela incapacidade de saber em qual informação confiar favoreceu a instauração da “pós-verdade”, com consequências desastrosas para vários setores mundo afora.

Na “pós-verdade”, por não conseguirem confiar nas informações e nos fatos, as pessoas acabam tomando decisões baseadas no apego às suas crenças pessoais, nos seus valores morais e em suas emoções.

No campo da ciência, por exemplo, a falta de conhecimento das pessoas sobre como o trabalho científico é realizado colabora para que as “fake news” encontrem terreno fértil e ganhem muitos adeptos, infelizmente. Muitas vezes a notícia falsa tem uma estrutura bastante parecida com a de uma verdadeira, contendo a apresentação de fatos, relatos e dados quantitativos “científicos”, a citação de nomes de pseudoautores (que podem ou não ser nomes de cientistas verdadeiros) e de informações vagas sobre a instituição onde a pesquisa foi realizada, levando as pessoas a acreditarem naquilo que foi divulgado. Não raramente chegam perguntas de alunos sobre notícias veiculadas nas redes sociais, questionando se o que leram é verdadeiro: por exemplo, é verdade que o aquecimento global não existe?

As intenções por trás de uma notícia falsa envolvendo a ciência são muito variadas, passando pelo interesse em desacreditar o conhecimento científico e, com isso, diminuir o apoio público para os investimentos destinados à pesquisa, manter o obscurantismo das pessoas e, com isso, manipulá-las mais facilmente e atender a interesses ideológicos, religiosos ou econômicos de setores específicos, por exemplo.

Notícias recentes não faltam e um dos mais espantosos é o ressurgimento da crença de que a Terra é plana, algo que parecia ter sido superado séculos atrás.

Se os “terraplanistas” não causam, de imediato, prejuízos para a população, o mesmo não se pode dizer a respeito da disseminação de inverdades sobre as vacinas, algo que parece ter começado em 1998 com a publicação de um artigo de Andrew Wakefield na revista The Lancet. Várias pesquisas foram realizadas desde então demonstrando que não há relação entre a aplicação de vacinas e o desenvolvimento de autismo em crianças, sendo que o próprio autor já se retratou sobre isso, mas assim mesmo, o movimento antivacina parece continuar crescendo, o que é muito preocupante.

Doenças consideradas praticamente extintas em diferentes partes do mundo estão ressurgindo, causando a morte de pessoas, como é o caso do sarampo: o Brasil, por exemplo, que em 2016 recebeu um certificado da ONU pela eliminação do sarampo, passou por um recente surto da doença. Onze estados e mais de 10 mil pessoas foram atingidas recentemente e, irá perder o certificado de erradicação por causa de um novo surto em 2018.

Outro tipo de “fake news” que pode ter consequências muito negativas é a que envolve a realização de dietas (consumo de chás, frutas, sementes, por exemplo) que seriam capazes de “curar” o câncer: médicos e instituições de tratamento oncológico frequentemente alertam para o perigo que elas representam, muitas vezes debilitando mais o organismo.

Sempre que notícias relativas a algum tema envolvendo biologia são trazidas pelos alunos, elas são analisadas e discutidas: onde a notícia foi publicada? Havia nomes dos pesquisadores? Onde a pesquisa foi realizada? Quando? Verificaram se a descoberta ou a pesquisa foi divulgada em outras fontes confiáveis?

Trata-se de um exercício que tem sido realizado de forma contínua com o objetivo de que o aluno se torne criterioso e não acredite em tudo o que chega a ele é “cientificamente comprovado”.

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