Olhar para a diversidade religiosa dentro da escola

Olhar para a diversidade religiosa dentro da escola

COLÉGIO SANTA MARIA

11 de setembro de 2020 | 07h30

Autoria –  Marcos IKI

Uma conquista dos movimentos sociais – sobretudo o movimento negro – no Brasil, o ensino da cultura africana, afro-brasileira e indígena tornou-se obrigatório nos currículos escolares. Desde a alteração implementada em 2003 na LDB, cujos desdobramentos se apresentam nas habilidades e competências requeridas pelas bases curriculares do Novo Ensino Médio, este nível do ensino deve abrir espaço para promover uma reflexão a partir de matrizes diferentes daquelas que haviam sido dominantes na história do Brasil. Como bem colocado no samba enredo da Mangueira de 2019, composto por Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino: “ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”.

 

O campo do estudo da religiosidade oferece um espaço privilegiado por essa reflexão, por uma série de motivos. Uma dimensão auto evidente é a centralidade das discussões religiosas no espaço público contemporâneo. Não somente a laicidade do Estado brasileiro é corroída diariamente por discursos e projetos de lei fundamentados em princípios religiosos excludentes da diversidade, como salta aos olhos a violência infligida contra grupos religiosos detentores de menor capital político, econômico e social.

 

A escola deve olhar para essa dimensão negativa, do cerceamento à liberdade religiosa presente no nosso país. Mas há também uma dimensão positiva da reflexão que pode ser promovida, de enorme relevância para a formação da cidadania. É o encontro com valores, éticas e epistemologias outras, presentes nas diversas religiões indígenas e afro-brasileiras. Aqui o estudo se debruça não somente para as contribuições históricas e as lutas de resistência que constituíram esse país, mas para formas vivas de intelecção e de estar no mundo.

 

A partir de conceitos como o perspectivismo ameríndio das populações amazônicas, do guata porã guarani mbyá, da ética profunda das relações entre orixás, e destes com seus filhos, podemos ter outras bases éticas e epistemológicas para a crítica. Com elas, podemos repensar a autodenominada civilização ocidental, sua universalidade excludente e seus paradigmas antropocêntricos e individualistas de relação com o outro e com o mundo. Assim buscamos, no Ensino Médio do Colégio Santa Maria, promover uma reflexão sobre o Brasil a partir de categorias brasileiras, mas frequentemente apagadas.

 

Este processo se constrói no contato com alunas e alunos vindos de contextos distintos, alguns mais próximos e outros mais distantes dessas perspectivas. E dá-se também em uma região delicada de suas individualidades em construção, ao colocar luz sobre valores frequentemente bastante centrais.  Sobretudo por isso, é tarefa de uma educação reflexiva promover essa abertura, para que a violência estrutural da sociedade brasileira, que permeia e é permeada pela religião, seja enfrentada pelas novas gerações.

 

Imagem 1 – Trabalho da aluna Maria Clara França Nascimento, aluna do Colégio Santa Maria, para trabalho no curso de Espiritualidades

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