O que vai ficar da pandemia para a educação?

O que vai ficar da pandemia para a educação?

COLÉGIO SANTA MARIA

08 de maio de 2020 | 07h30

Autoria Natália Ruela

 

Estamos vivendo um momento de difícil classificação. Chamá-lo de inusitado parece refletir pouco o significado de nossas angústias pessoais e sociais, mas, em meio ao caos  e ao medo gerado pelo necessário afastamento em decorrência da COVID-19, algumas coisas bonitas parecem florescer dentro de nós e causar algumas alegrias.

 

Na educação, os esforços de alunos e professores para a adaptação ao novo formato de aula (novo pelo menos para os que, como eu, são professores e alunos de aulas presenciais) fez aflorar a importância do que fazemos todos os dias, às vezes tomados pelo desânimo e pelo cansaço.

 

Como ficar tanto tempo distante – além das pessoas que amamos e que nos constroem – da construção e apreensão de conhecimento, de arte, de sensibilidade e de experiências que a escola nos proporciona rotineiramente? A nossa sorte – porque há sorte em meio a essa obscuridade pandemônica – é que temos plataformas e aplicativos educacionais que nos possibilitam encontros, aproximações, trocas e construções, ainda que não possamos nos tocar. Elas não saciam nossa sede de presença, mas não nos afasta por completo e permite que aprendamos e que caminhemos para frente, construindo, inclusive, novos caminhos outrora inimagináveis.

 

Quando tudo isso passar – porque vai passar – estaremos saudosos dos abraços, da troca de olhares, das balbúrdias dos debates e estaremos mais abertos a enxergar o quanto o dia a dia é bonito e a gente se recusa a aceitar.

 

Eu havia planejado falar de alguma experiência bonita/ construtiva/ inovadora das que tenho vivido em minhas aulas virtuais do Santa Maria – tenho tido várias delas, aulas e experiências fantásticas – ,mas me dei conta de que isso sempre acontece em sala de aula, seja ela real ou virtual. O que faz falta é a convivência, é a proximidade: são as pessoas, os diálogos sem hora marcada e sem roteiro.

 

Lembrei-me, quando pensava no que queria dizer, de um trecho do poema Uma alegria para sempre, de Mário Quintana, em que o poeta diz que “as coisas que não conseguem ser olvidadas continuam acontecendo”.

 

A gente tem aprendido muita coisa bonita sobre educação nesses dias de necessidade de afastamento. Aprendemos que o ensino e a aprendizagem continuam acontecendo; mas a gente aprendeu que dá muita saudade da presença diária de quem caminha junto – e livre – com a gente.  E esse aprendizado é uma alegria.

O poeta John Keats, há cerca de dois séculos, eternizou, em alguns de seus versos de From Endymion, que  “o que é belo há de ser eternamente uma alegria, e há de seguir presente” (tradução de Augusto de Campos).  Essa brecha da beleza de relembrarmos a importância dos encontros para a educação é uma alegria que ficará para sempre, mesmo quando já tivermos superado esse momento de apartação e de saudade.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: