O Estudo do Meio como ferramenta e práxis pedagógica

O Estudo do Meio como ferramenta e práxis pedagógica

COLÉGIO SANTA MARIA

29 Junho 2018 | 07h30

Um dos mais significativos aprendizados que a escola pode construir junto às alunas e alunos é o compromisso com os saberes em constante diálogo, não fragmentado e vivo. O trabalho através dos Estudos de Meio revela-se, nesse sentido, um instrumento poderoso para sua efetivação.

Na história do Colégio Santa Maria, diversas experiências foram vivenciadas ao longo de seus 70 anos de existência, enriquecendo a formação de diversas gerações de educandas/os e professoras/es.

Desde as viagens dos grupos de trabalho voluntário, que passaram por Telêmaco Borba e Registro, às saídas pelo centro de São Paulo, fábricas e fazendas, a Escola continua reinventando suas formas de educar e se colocando como local privilegiado de construção de consciência histórica e cidadania. Ao estabelecer essa “conversa” entre áreas do conhecimento e em tempos e espaços diversos, possibilita o estabelecimento de relações entre passado e presente, mas também se compromete com perspectivas para pensar o futuro.

No Ensino Médio, as propostas são aparentemente distintas, levantadas numa discussão nas Ciências Humanas e em série. Com um olhar mais apurado, percebe-se que os três projetos têm como objetivo ampliar o olhar crítico sobre o passado, sobre as formas de ser e viver, contribuindo para a reflexão e superação de preconceitos e estereótipos. Desde a experiência nas aldeias de São Paulo, passando pelos espaços de memória no centro, buscamos construir coletivamente projetos pautados pelo comprometimento com exigências acadêmicas e conceituais, bem como experiências de convivência com o diverso e com a alteridade.

No 2º ano do Ensino Médio, o Estudo do Meio privilegia o que chamamos de “Arquiteturas das desigualdades”. Esse estudo é realizado tendo como foco a visita à fazenda de Ibicaba, localizado entre as cidades de Limeira e Cordeirópolis, no interior do estado de São Paulo. Ela foi palco da primeira revolta de imigrantes, também conhecida como Revolta dos Parceiros, em 1847.

O objetivo do trabalho é transcender os fatos que desencadearam a resposta das/os imigrantes açorianos e suíços às péssimas condições de trabalho e contrato a que foram submetidas. Todas essas condições foram objetos de estudos a posteriori. Para o grupo de educadoras/es um olhar mais profundo pode levar ao conhecimento dos espaços que forjaram o nascimento da própria ideia de modernidade à brasileira. Considerado um visionário na leitura tradicional da história, o Senador Vergueiro, proprietário da fazenda, introduziu o sistema de parceria no Brasil. Como objeto de uma análise mais superficial, o trabalho livre dos/as imigrantes representaria uma “luz” para a superação do passado escravocrata. As evidências históricas e a prática do estudo, porém, nos permitem ir além dessa perspectiva linear. Ao caminhar e registrar através de fotografias e textos espaços tão diversos como a senzala, a colônia imigrante e a própria sede da fazenda, o estudo do meio nos permite construir um diálogo passado/presente a partir de arquiteturas e construções abissalmente desiguais. Nessa integração com os diferentes espaços, é possível reconhecer mudanças e permanências de mazelas que ainda assombram a sociedade contemporânea, como o racismo e o elitismo embutidos no discurso liberal da época.

Tomar contato a primeira vez com uma senzala e o peso do passado escravista, nos permite formas de pensar mais críticas sobre a experiência do racismo à brasileira, que nega sua existência, mas mantém a maior parte da população negra excluída dos espaços de poder. Conhecer e identificar na sede da fazenda a obsessão pela exuberância e a tentativa de reprodução de estéticas europeias possibilita também a reflexão sobre os abismos entre a elite e o povo brasileiro.

 

“A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido”.  Walter Benjamim